Altos e Baixos

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blue.gif (994 bytes)A campanha eleitoral para as eleições europeias vive muito da fulanização das listas, do protagonismo dos cabeças de lista, sempre sem perder de vista os líderes partidários, ou os "opinion makers".

Uma lista pode valer pelo valor acrescentado do eleito para a cabeça do grupo de euro-candidatos; uma lista pode sofrer pelas dificuldades sentidas nos debates pelo cabeça de lista. Por vezes há protagonismos que despontam sem atender ao lugar de arrumação na lista — lembremos apenas o caso de Lucas Pires na lista do PSD.

Lembremos também o longo período de gestação das listas para as europeias, recordemos a cobertura feita pela imprensa aos vários partos, arriscando hipóteses, confirmando convites que não passaram de cortinas de fumo, atentemos também no protagonismo dos que são protagonistas por terem dito não, como foi o caso de Vítor Constâncio.

Dizem os investigadores que os jornalistas fogem ao complexo. Trabalhando para órgãos de comunicação de massas, e sendo estas pouco atreitas a consumir material não acessível à primeira leitura, natural se torna que o jornalista, o rewriter ou o gate-keeper se adequem à vontade das grandes massas, para que estas não fujam para o media concorrente.

Essa simplificação é patente na redução do produto escrito, radiodifundido ou televisivo a um quadro que pode por vezes roçar o mais puro mamiqueísmo: os bons da fita de um lado, os maus do outro.

Na sua eterna busca da "objectividade jornalística", o fazedor de notícias tem que resistir à tentação de emitir opinião, por mais que a evidência da má prestação de um candidato lhe salte à vista, por mais que o carisma de um político o fascine.

Se ao jornalista "que se preze" lhe são quase que fechadas as portas à opinião, isso não significa que o jornal prescinda dessa opinião. Imprime-se opinião no jornal, sem vincular o jornal. Como fazer? Com gente de fora, convidados ilustres com carta branca para bem zurzirem a bom zurzir no que lhes apetecer, ou no que lhes apetecer dentro do quadro de apetências editoriais do órgão de comunicação social que o convidou e que lhe paga à peça.

De vez em quando o jornalista salta a barreira, permitindo-lhe que também emita opinião. Assina então um "comentário".

Mas a vontade indomável do jornalista para escarrapachar aquilo que é seu, os factos não tal e qual como os viu, mas sim como os sentiu, leva à criação de espaços padronizados onde pode à vontade emitir opinião. Nalguns casos, esses espaços não são sequer assinados, mesmo que produzidos sempre pelo mesmo autor. Noutros casos, tais espaços bebem da inspiração dos vários elementos do corpo redactorial, cada qual dando a sua perninha.

As rubricas tipo "Altos e Baixos", "Tendências", "A subir… A descer", constituem um pequeno reduto no qual o jornalista pode dizer do que gostou e do que não gostou, pode esparramar o seu "veneno" a olhos vistos.

Resolvemos dar uma piscadela de olho por algumas dessas rubricas, com especial incidência no jornal "Expresso".

CAVACO ALTO

A rubrica "Altos… & Baixos", publicada no semanário "Expresso" e assinada por Henrique Monteiro, atribuía um "Alto" a Cavaco Silva, estávamos a 5 de Março de 1994. Cavaco na mó de cima, graças aos fundos…

"Cavaco Silva — Uma semana, que começa com a assinatura de um acordo que faz entrar 3250 milhões de contos no país, é uma semana boa para qualquer primeiro-ministro do mundo. Seja, ou não, dele o mérito, a verdade é que já lhe permitiu falar de planos até ao próximo século e deixar no ar que, ao contrário de versões optimistas para os seus adversários, se prepara para ficar no Governo mais uma boa meia-dúzia de anos" — escrevia Henrique Monteiro, classificando e vaticinando. Um vaticínio que, de uma penada, colocava Cavaco de fora das presidenciais. (Expresso, 5 de Março de 1994)

BARÃO EURICO NAS ALTURAS

Na semana seguinte, era Eurico de Melo o brindado com um "Alto". O articulista não o refere, mas subentende-se que Eurico ganhou por ter obrigado Cavaco a requisitar os seus serviços, ele que havia batido fragorosamente a porta por donde saiu do governo do mesmo Cavaco Silva:

"Eurico de Melo — Em crise de consciência europeia e federalista, o PSD (ou melhor, Cavaco Silva) viu-se obrigado a ir chamar o velho barão de S. Tirso para caucionar o portuguesismo do partido governamental. É verdade que os sociais-democratas não tinham muito por onde escolher, mas a entrada em cena, pela direita, de Manuel Monteiro ainda lhes reduziu mais a margem de manobra".

O PAI DO SATÉLITE A VOAR BAIXINHO

Na mesma edição, um seu colega de lista apanhava com um "Baixo". Tratava-se aqui de Carvalho Rodrigues, o "pai" do POSAT, penalizado por Monteiro por "alaranjar" a investigação científica:

"Carvalho Rodrigues — O entusiasta do PoSat resolveu integrar, como independente, a lista do PSD para as europeias. Depois da polémica à volta da utilidade do satélite português, não podia ter prestado pior serviço à investigação científica do que dar a entender que os investimentos se pagam com fretes políticos". (Expresso, 12 de Março de 1994)

VITORINO LÁ POR CIMA

A 26 de Março, é o jornal "Público" que coloca António Vitorino nos píncaros, ao mesmo tempo que "afunda" Guterres no rodapé da rubrica inserida na sua página "A semana política".

Vitorino é classificado como um dos mais competentes dirigentes socialistas:

"António Vitorino — Mesmo a contragosto, não deixa de ser o primeiro das segundas escolhas do PS para cabeça-de-lista às eleições europeias de Junho. Reconhecido como um dos mais competentes dirigentes socialistas, o até há pouco juiz do Tribunal Constitucional é hoje uma das primeiras figuras do partido, praticamente o braço-direito de António Guterres. Tem a vantagem de, perante um eventual mau resultado nas europeias, não ser o primeiro culpado. O contrário não deixará de ser uma vitória (também) sua".

GUTERRES EM RODAPÉ

António Guterres não beneficia dos louros de ter conseguido o assentimento de Vitorino, mesmo sabendo este ser segunda escolha. O líder socialista vem para o rodapé por ter deixado fugir Constâncio:

"António Guterres — O secretário-geral do PS perde com a recusa de Vítor Constâncio em liderar a lista socialista ao Parlamento Europeu. A aposta pessoal de António Guterres era determinante e, por isso, arriscada. Guterres perdeu, sobretudo, uma oportunidade para emancipar definitivamente a sua liderança. Resta-lhe envolver-se numa campanha que projecte António Vitorino. A derrota de hoje poderá ser a vitória de amanhã".(Público, 26 de Março de 1994)

"NÃOS" PARA CIMA E PARA BAIXO

A 1 de Abril, Henrique Monteiro volta a seleccionar dois protagonistas das europeias para a sua coluna. Com a particularidade de se tratar aqui de dois políticos que não integram as listas, embora por razões diferentes. Mas é essa não integração que justifica a inserção de João Cravinho e Maria Belo nos "Altos…& Baixos" do "Expresso":

João Cravinho mereceu um "Alto":

"João Cravinho — Recusar um lugar invejável no Parlamento Europeu (e voltar à Assembleia da República) por assumir uma discordância na forma como a lista foi constituída surge, em Portugal, como um caso raro de coerência. Sobretudo tendo em conta as cenas tristes a que tantos outros, em circunstâncias semelhantes, se prestaram".

Já Maria Belo tem que se aguentar com um cáustico "Baixo":

"Maria Belo — Foi corrida da lista do PS para Estrasburgo, depois da sua esforçada contribuição em defesa de um parlamento paritário e das quotas para mulheres. O mesmo aconteceu a Maria Santos. Agora, os socialistas apresentam uma única mulher (Helena Torres Marques) em lugar elegível. Duas derrotas numa só: falha a eleição e perde a batalha política". (Expresso, 1 de Abril de 1994)

UM ALTO TRUQUE

Na semana seguinte, na mesma rubrica, Ivan Nunes é galardoado com um "Alto". António Guterres, que já no "Público" havia sido brindado com um lugar no fundo da tabela, recebe idêntica "cortesia", mas agora no "Expresso".

Nunes é premiado pela juventude e pelo facto de não ter tido pejo em afirmar que a sua candidatura era apenas um truque para chamar a atenção da comunicação social. Em princípio, o jornalista não deve aceder de bom grado a truques que levem o jornalista a escrever sobre o que quer que seja. Mas se o autor do alegado truque confessa a intenção do truque, então, mais que compreendido, tem direito a um "Alto". O truque funciona na perfeição…

"Ivan Nunes — Liderar, aos 20 anos, uma lista para o Parlamento Europeu, ainda que sem hipóteses, é um facto digno de registo. Mesmo quando se tem a humildade de afirmar que isso não passa de um truque para chamar a atenção da comunicação social. Fazer campanha contra a "bimbocracia", pode ser outro truque bem sucedido. Resta apenas mostrar o que valem o candidato e a lista. Sem truques".

GUTERRES NA MÓ DE BAIXO

Guterres, esse vai ter que arranjar um truque para diferençar o seu discurso do do PSD:

"António Guterres — O líder do PS não acerta em matéria de eleições europeias. O discurso é tão semelhante ao do PSD que já só os especialistas os distinguem. Agora, que Soares surge a defender o federalismo, espera-se que o estado-maior do Largo do Rato se lembre, finalmente, que esta costumava ser a posição do seu partido". (Expresso, 16 de Abril de 1994)

ALTOS E BAIXOS NA ARENA TELEVISIVA

A 30 de Abril, Henrique Monteiro oferece um "Alto" a Manuel Monteiro, enquanto despromove Eurico de Melo. O cabeça de lista do PSD tinha tido direito a um "Alto" a 12 de Março, agora leva com um "Baixo", tudo por culpa das suas más prestações nos debates.

Manuel Monteiro saiu-se melhor na arena televisiva, e daí o direito ao "Alto":

"Manuel Monteiro — Segundo debate a quatro, segunda vitória do candidato centrista ao Parlamento Europeu, desta vez na RTP. É ele quem decide o campo de combate e as armas usadas. A sua grande vantagem, em relação aos concorrentes, está no facto de não precisar matizar ou disfarçar ideias".

Manuel Monteiro já havia, aliás, sido brindado com um outro "Alto", a 9 de Abril, e por (no entender do classificador) ter ganho o primeiro debate sobre as europeias, na TSF.

"Eurico de Melo — O PSD meteu-o numa luta para a qual está manifestamente impreparado. As suas prestações nos debates já provocam calafrios na direcção laranja. Ao ter aceite liderar uma lista pré-fabricada, na qual ninguém se entende quanto à Europa, tornou-se o mais vulnerável dos candidatos" (Expresso, 30 de Abril de 1994)

Afinal de contas, e atendendo ao texto do "Alto" que Henrique Monteiro havia atribuído anteriormente a Eurico de Melo, não terá sido Cavaco Silva a vergar a mola perante o barão do norte, mas sim a oferecer-lhe um presente envenenado.

PARMALAT AFUNDA ROSADO

A 28 de Maio, ainda no "Expresso", é Rosado Fernandes, integrante da lista do CDS/PP às europeias, que sofre um "Baixo". Tudo por culpa do efeito Parmalat:

"Rosado Fernandes — Bem prega Frei Tomás! Andava o presidente da CAP na campanha dos produtos portugueses — como candidato do CDS — quando se soube das relações da CAP/Parmalat. Com as suas explicações, ficámos sem perceber se, afinal, defende os produtos portugueses ou as empresas que pagam melhor aos agricultores". (Expresso, 28 de Maio de 1994)

No dia anterior, mas no "Diário de Notícias", António Guterres lá conseguia uma seta a apontar para o céu, tudo graças às sondagens. Um bom líder é o que consegue vitórias, e com os estudos a apontarem o primeiro lugar para a rosa, o líder merece seta:

"António Guterres tem razões para sorrir. As sondagens reconhecem-no líder da oposição e o PS aparece em boa posição eleitoral. Ao propor ao PR a convocação de um Conselho de Estado, deixou uma dúvida que o favorece: quis embaraçar Soares ou mostrar uma surpreendente sintonia de posições?"

PEIXEIRADA DE VITORINO?        OU PROGRAMA FORMATO CANASTA?

Na antecâmara das eleições, a revista "Visão", na sua rubrica "Tendências" brinda António Vitorino com uma seta vermelha em direcção ao chão. Nota negativa, e mais uma vez a prestação nos debates a decidir a classificação. Uma diferença de fundo nos critérios com o colega "Expresso". A "Visão" não penaliza Vitorino por falar pouco ou dizer mal, mas por ter falado demais:

"António Vitorino, confundindo vivacidade com peixeirada, muito contribuiu (na sua estreia nos debates da SIC) para empurrar ainda mais eleitores para a abstenção nas eleições europeias. Pode muito bem acontecer que, por excesso de impulsividade e overdose discursiva, o cabeça de lista do PS afaste muita gente".

(Visão, 9 de Junho de 1994)

VITORINO RECUPERA NO DIA SEGUINTE

MONTEIRO REPETENTE LÁ POR CIMA

No dia seguinte, Vitorino desforra-se da "Visão", conseguindo um "Alto" no "Expresso". Manuel Monteiro, esse, surge como repetente na galeria dos "Altos" assinada por Henrique Monteiro.

"António Vitorino — Independentemente dos resultados que vier a obter, foi a revelação desta campanha eleitoral. Pouco conhecido antes das Europeias, poucos se lembrarão de que foi apresentado como candidato de recurso, após a negativa de Constâncio. É já uma das figuras com maior peso e futuro no PS. Apenas a imagem o trai".

"Manuel Monteiro — Passou a sua primeira prova de fogo — uma campanha eleitoral — com mérito. Revelou, juntamente com o número um do PS para a Europa, uma nova geração de políticos, na casa dos 30 anos, com os quais será necessário, doravante, contar. Sejam quais forem os resultados é, pessoalmente, um vencedor". (Expresso, 10 de Junho de 1994)

GANHAR NA SECRETARIA É QUE NÃO

A 9 de Julho, quase um mês depois de encerradas as urnas, Henrique Monteiro há-de penalizar "uma das figuras com maior peso e futuro no PS" — António Vitorino. E tudo por este se ter lembrado de apoiar Cavaco Silva para Presidente da Comissão Europeia:

"A ideia de apoiar Cavaco Silva para presidente da Comissão Europeia, por muito boas justificações que tenha (defesa dos interesses nacionais, etc.), surge como a via mais fácil de o PS chegar ao poder. Só que ninguém gosta de ver jogos ganhos na secretaria, e muito menos de vitórias por falta de comparência".

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