No boicotar pode estar o ganho

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blue.gif (994 bytes)Utilizar o voto para através dele conseguir benefícios pode não passar pela sua introdução numa urna. Os eleitores portugueses foram descobrindo a pouco e pouco que, para a satisfação imediata de algumas carências locais, a melhor forma de utilizar o voto passa… por não o utilizar.

Os boicotes passaram a integrar invariavelmente o calendário de todas as eleições em Portugal; passaram também a integrar a agenda dos media e, talvez por esse facto -- e também por isso -- vão crescendo de intensidade. Até porque, em muitos dos casos, nem é preciso levar o protesto até final. O simples anúncio da promessa de boicote coloca logo no mapa a aldeia mais recôndita.

Um presidente de uma junta de freguesia que queira dar a conhecer a sua terra aos portugueses, por certo não terá dinheiro para uma campanha na televisão, ou em revistas de turismo e viagens.

Nem precisa. Um fax ou um telefonema para a redacção de um jornal, rádio ou televisão bastam para que a campanha de promoção da aldeia entre em marcha. Abordar-se-ão as razões do boicote, o autarca ou governante visado por incumprimento da promessa aparecerá finalmente a justificar-se pelo esquecimento; a meio da operação os media poderão voltar, para saber se a intenção de boicote se mantém. Nas vésperas das eleições a localidade volta à ribalta, integrando a lista dos 'boicotadores', lista que se repete no dia das eleições.

 

Com votos queimados ou bosta de animal nas escadas de acesso à assembleia de voto, dá direito a televisão no dia eleitoral.

Nova tentativa se fará, uma semana depois. Semana de nova glória para a aldeia, vila ou cidade que faltou ao chamamento das urnas. Votem ou não votem, quatro anos depois, ou três, ou dois, ou um, ou menos ainda, em tempo de novas eleições, os jornalistas por lá aparecerão com a pergunta sacramental: Valeu a pena ter boicotado?

Ai não que não valeu, as autoridades tiveram mesmo que mandar fechar a pocilga que nos empestava o rio; ai não que não valeu, então o senhor não chegou até cá num estradão sem buracos?

E se o boicote vale a pena, e os vizinhos das aldeias do fim do mundo ouvem a notícia, a seguir lá estarão eles a tentar o mesmo truque.

Porque é que se anunciaram boicotes nas europeias de 1994?

A lista do jornal "Público" do dia das eleições incluía boicotes para os gostos mais diversos.

"Em Paradinha, pequena localidade da freguesia de S. Salvador (Viseu), é um complexo desportivo, que inclui um campo de futebol já construído, que serve de argumento para a recusa ao voto.

No concelho de Tomar, os 400 eleitores da freguesia de Asseiceira decidiram abster-se em protesto pelo facto de o edifício da extensão médica de Pastorinhos, concluído há três anos, não estar ainda em funcionamento.

Em Castelo Branco são os moradores do Bairro de Carapalha que ameaçam também boicotar as eleições devido ao mau estado dos arruamentos".

Em Colmeias, no distrito de Leiria, lutava-se contra a instalação de um aterro previsto para a localidade de Barrocão; contra o encerramento do posto de correios e do posto de saúde, as populações de Santa Cruz da Trapa (S. Pedro do Sul) e de Nagosela (Santa Comba Dão), respectivamente, prometiam não ir às urnas também. Tal como os habitantes de Lageosa do Dão, que não aceitavam o encerramento da escola primária local, comprada por um empresário, e a transferência das crianças para uma C+S.

Posto médico, correios, escola primária, necessidades mínimas, necessidades básicas de cidadãos integrantes de um denominado 'clube dos ricos', cartão de membro cobiçado pelos que se encontram na fila de espera da adesão.

O que é que a União Europeia tem a ver com os maus arruamentos do bairro de Carapalha? — perguntarão os euroentusiastas. O que nos importa a CEE? — responderão os proprietários dos carros com suspensões arruinadas pelos buracos da rua de acesso ao bairro de nome tão esquisito.

O que é que a Comunidade Europeia tem a ver?

'A Comunidade Europeia tem grandes responsabilidades em todo o encerramento das minas do Pejão', lia-se num comunicado dirigido à população pela Junta e pela Assembleia de Freguesia de Raiva, no qual se apelava à abstenção.

'Sem violência, sem distúrbios', apenas um grito de protesto que chame a atenção para os problemas que o encerramento das minas tornará inevitável -- o desemprego, a desertificação, o empobrecimento generalizado, lia-se no jornal 'Público', no bocado de texto referente a um boicote que fugia do rame-rame dos demais:

'Um pouco contra a corrente de revoltas ecologistas ou de reivindicações que se prendem com conflitos locais, em Raiva e Pedorido, no distrito de Aveiro, as duas freguesias mais atingidas pelo anunciado encerramento das minas do Pejão, as políticas comunitárias constituem uma das razões invocadas pelas populações para boicotarem as eleições para o Parlamento Europeu'.

Esta anunciada revolta, com características sociais -- prosseguia o diário --, marca a diferença em relação às provocadas por razões de natureza ambiental, também no distrito de Aveiro. Em Bustos, Palhaça, Mamarrosa e Troviscal, no concelho de Oliveira do Bairro, e em Ouca e Sosa, no concelho de Vagos, as populações rejeitam a instalação de um aterro de resíduos industriais cuja localização está prevista para uma área florestal situada no lugar de Azurveira.

'O boicote é definitivo, proclamava um comunicado divulgado anteontem e no qual se prometiam futuras recusas até que os dois concelhos sejam retirados da lista negra. E fornece-se um programa alternativo, que começa pelas sete horas com um circuito de alvorada, seguido de concentração junto aos locais de voto e à porta das mesas de voto. Aguardar os acontecimentos até ao almoço popular, pode ainda ler-se'.

O 'Público' não se referia ao anunciado boicote em Landeira, freguesia do concelho de Vendas Novas, e que a 27 de Abril furava as páginas do 'Diário de Notícias' graças aos propósitos de não comparência às urnas, a 12 de Junho. Um posto médico a funcionar apenas oito horas po semana era pouco para as maleitas dos mil habitantes da localidade:

'Landeira quer assistência médica todos os dias da semana, com o posto funcional durante seis a sete horas diárias. Não é demais, diz o presidente da junta, alegando que há muita gente idosa que precisa de grandes cuidados. Segundo contou ao DN vamos dar um prazo, possivelmente até final desta semana. Depois sairão à rua todas as medidas de luta; para além do boicote eleitoral, Landeira não exclui a hipótese de interromper a construção do IP-7, que ali passa'.

 

Os boicotes são coisa de freguesias, nas cidades mais difícil se torna arregimentar gente para o protesto, a Associação Nacional de Freguesias (ANAFRE) lembrou-se de um boicote generalizado das suas associadas. A ser levado à letra, não haveria eleições europeias em Portugal.

Mas o Governo estava atento, e a 15 de Maio o 'Diário de Notícias' já deixava a indicação de que as freguesias recuavam face a promessas de mais verbas:

'O Governo, ameaçado pela ANAFRE de boicote às eleições para o Parlamento Europeu, anunciou ontem que, a partir do ano que vem, as transferências do Fundo de Equilíbrio Financeiro (FEF) far-se-ão directamente para as juntas de freguesia' lia-se naquele diário, que acrescentava mais pormenores da operação governamental de desmobilização de tamanho boicote:

'Na sessão de abertura do IV Congresso da ANAFRE, que hoje termina em Braga, o secretário de Estado da Administração Local e Ordenamento do Território anunciou que, em Janeiro de 1995, os fundos destinados às autarquias, provenientes do FEF, passam a ser directamente transferidos para as juntas de freguesia. O anúncio apanhou de surpresa os mais de dois mil congressistas'.

Terão valido a pena os boicotes concretizados ou apenas anunciados? Os portugueses ficaram pelo menos a saber, e durante alguns dias, que em Portugal havia terras com nome de Mamarrosa, Ouca, Sosa, Nagosela e um bairro da Carapalha…

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