Quem vê caras vê candidatos

7a.gif (61781 bytes)

blue.gif (994 bytes)Uma campanha eleitoral faz-se com projectos, e com caras que dão a cara a esses projectos. Bastas vezes a personificação da campanha esmaga em muito o valor ténue dos projectos apresentados.

A intensa cobertura dada pelos media, em geral, e pela imprensa, em particular, ao processo de formação das listas de eurodeputados quer dizer isso mesmo: que quem vê caras não precisa ou se esquece dos projectos.

Cada vez mais os media alcandoram ao podium do sucesso ou "matam" um candidato. Aqui, falar-se em media é acusar injustamente imprensa e rádio, que está provado não servirem muito tais fins. É a televisão a detentora quase exclusiva do filtro que implacavelmente, sem misericórdia, "queima" o candidato que não tem jeito para o espectáculo, que reincide em dar a vez aos outros que com ele debatem, que se cala respeitosamente quando os outros se desunham para falar. O filtro redutor e o filtro amplificador, este a fazer passar a imagem do "bom candidato",o político cuja imagem vende, o candidato que se move com à vontade frente às câmaras de TV.

As eleições europeias desenterraram rumo à ribalta ilustres desconhecidos do grande público, fossem eles eurocratas, candidatos prenhes de europeísmo ou outros que, embora candidatos, só deixaram um pé dentro da lista.

Interessava dar a conhecer a pessoa, o seu percurso político, os seus feitos universitários, o seu curriculum profissional. Se calhar, dizer até de quem é filho, se o candidato for jovem. Ou então, de quem é pai, mesmo que o candidato ainda não seja entradote.

O jornal "Público" avançou com a publicação da secção "Caras", para dar a conhecer aos leitores pormenores que os candidatos não divulgam nos comícios em que participam. Perfis diversos, de variegadas centralidades.

O SONHO COMANDA O CANDIDATO

Oportunidade para se revelarem sonhos, por vezes para se dizerem banalidades, que a estratégia partidária a isso obriga. O sonho de Delgado Domingos, candidato independente pelo Movimento Partido da Terra (MPT), que considerava Estrasburgo "o melhor palco" para a sua mensagem ambientalista. O professor catedrático por certo conheceria as remotíssimas possibilidades de ser eleito, mas isso ninguém o pode dizer, principalmente quando se é cabeça de lista. Os eleitores logo perguntariam a razão da candidatura.

Delgado Domingos ainda era cabeça de lista. Já Gilberto Madail aparecia cá para o meio da lista social democrata, na faixa que já é bem mais negra do que cinzenta. Mas não poderia desconfiar da possibilidade da sua eleição. O importante é ter fé, que os votos hão-de aparecer:

DE MILAGRES NÃO ESTÁ ESTRASBURGO CHEIO

"'É preciso ter fé', responde Gilberto Madaíl sempre que é questionado sobre as suas chances de ser eleito eurodeputado nas eleições de 12 de Junho. Estrasburgo parece muito distante para quem ocupa o décimo segundo lugar, como independente, na lista europeia do PSD, mas o governador civil de Aveiro acredita no milagre".

Talvez por crendices destas andem os milagres tão desacreditados. Ou talvez não. É que o candidato justifica com actos passados a sua alegada fé na eleição:

"Por isso, aproveitou o período de pré-campanha para estudar detalhadamente o funcionamento das instituições europeias em geral e do Parlamento Europeu em particular. Mergulhou na leitura do Tratado da União Europeia e, pelo meio, fez até uma 'visita de estudo' à cidade francesa, que só conhecia de nome".

Quanto a Madaíl, que não foi eleito eurodeputado, só teve a ganhar com o facto de ter sido eleito candidato ao lugar. Os aveirenses ganharam um governador civil mais conhecedor das regras europeias, alguns anos após a adesão do distrito à CEE.

O PE PERDEU UM ET

Também Carvalho Rodrigues, conhecido como "pai" de um satélite português filho de mãe incógnita, também ele, que por lapso do jornal é colocado na mesma cadeira de candidato que Gilberto Madaíl (a cadeira 12), também ele tencionava "ocupar o seu lugar em Estrasburgo e dar tudo por tudo para a concretização da 'nova renascença'", projecto que só fica bem a quem, segundo o jornal, "ouvi-lo falar sobre política é o mesmo que imaginar um ET a passear-se pelo Museu dos Coches".

A EUROPA SEGUNDO SARAMAGO

Já José Saramago baralha o jogo todo, ao confidenciar que só aceitou integrar a lista da CDU na condição de não ser eleito, e a sê-lo logo renunciaria.

Enquanto uns fazem visitas de estudo e se embrenham no romance de Maastricht, Saramago para a Europa já deu. Muito pouco, pois vê a União Europeia como "uma organização que conta com 18 milhões de desempregados" e onde "a economia está contra o homem e não o serviço do homem". Porquê candidatar-se então?

Para dar uma ajudinha na pugna eleitoral, a favor do seu partido. Uma ajuda na corrida aos votos, ajuda com o peso do nome. Honório Novo, outro candidato da mesma coligação, colocado uns furos acima de Saramago, esse já não questiona a Europa, no perfil desenhado pelo "Público".

Ivan Nunes, cabeça de lista do Política XXI também sabe de antemão que não vai ser eleito, mas o objectivo do caçula dos cabeças-de-lista não é esse. Candidatou-se com o objectivo de criar uma "imagem de choque", em contraste com o "candidato normal".

AS ARMAS E AS DEFINIÇÕES ASSINALADAS

Perfis que para o serem, incluem por vezes definições na primeira pessoa. Helena Vaz da Silva define-se a si própria como "uma pessoa de trabalho que não sabe estar sem agir sobre a realidade e acredita que isso é útil".

Sílvio Cervan, candidato pelo CDS/PP, esse define-se como "uma pessoa bastante conservadora, mas liberal". E para sossegar as almas menos atreitas ao conservadorismo, saca de outra definição: "Conservadorismo não é imobilismo, é saber honrar a História e projectar o futuro, com reformas e não com revoluções".

O major que o PSN foi desencantar para encabeçar a lista do partido às europeias, esse não se define, antes se caracteriza. "Caracteriza-se como um 'cidadão que tem lutado com as armas da precisão e da coragem". As armas, exactamente, ou não fosse o homem major.

Na campanha, revelou-se de uma precisão ao milímetro nas graçolas de mau gosto que distribuiu a metro.

Outro a sonhar com Estrasburgo, apesar de saber de antemão que não viria a ser eleito. E se fosse?

Seria, em Estrasburgo, o "veículo da mensagem fora do sistema" e o "sinal de alarme para as mentalidades adormecidas dos portugueses". Ficou fora do sistema que só atribuiu vinte e cinco lugares a Portugal, e os portugueses perderam um sinal de alarme. Talvez não tenham perdido grande coisa, à distância a que está Estrasburgo, o alarme dificilmente se ouviria cá!

As "Caras" do "Público" tiveram o mérito de nos mostrar que alguns dos candidatos são uns acumuladores. Por mérito próprio, com certeza que sim.

Por exemplo, Helena Vaz da Silva. Dirige o Centro Nacional de Cultura, pertence ao Conselho Estratégico de Lisboa, ao Conselho de Opinião da RTP, ao Conselho de Orientação para Investigação Científica do Conselho da Europa, ao Conselho Geral da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, preside à Comissão Nacional da Unesco, e é consultora da EXPO-98. Ufff…

E AS CRIANÇAS, SENHOR?     ESTUDAM AS DUAS…

Carvalho Rodrigues, o ET a falar de política também exibe curriculum vasto, nas "Caras". Àqueles que não têm curriculum para mostrar, por lhes faltar idade, engenho ou arte, preenche-se-lhes o espaço da rubrica com outros dados. De Ivan Nunes ficamos a saber ser filho de João Arsénio Nunes e de Ana Prata e enteado de José António Pinto Ribeiro.

De Honório Novo ficamos a saber que é divorciado e "pai de duas raparigas — uma estuda Veterinária e a outra frequenta o 9º ano e estuda violoncelo, 'é quase uma violoncelista profissional' ".

A EUROPA DOS BAIRROS

Ao ler alguns dados libertos pelos perfis, ficamos na dúvida se os candidatos estudaram a valer a Europa, ou se o livreiro os enganou, e lhes vendeu um manual de bairrismo a cheirar a bafio. Madaíl pretende defender no PE os interesses do distrito de Aveiro, tarefa fácil por cumprida estar a condição-base de tão distriótica tarefa:

"O candidato independente considera-se 'uma figura de implantação distrital", capaz de 'entender os anseios de localidades tão diferentes como são Castelo de Paiva e Aveiro".

Os mineiros do Pejão ainda hoje chorarão a não eleição de Gilberto Madaíl. Em coro com alguns seus colegas da Federação Portuguesa de Futebol, que um dia sonharam vê-lo em Estrasburgo, que fica a muitas milhas da Praça da Alegria. Mas sonharam em vão. O aveirense não foi eleito, e mesmo que o fosse, não pretendia deixar o cargo.

Honório Novo também esperava ser eleito para defender os interesses do Norte:

"E promete que no Parlamento Europeu dará 'uma atenção maior aos problemas económicos e sociais dos trabalhadores do Porto' ".

Descendo um pouco, Girão Pereira, candidato do CDS/PP, pretendia ser no PE "a voz da zona Centro-Norte do país".

Os perfis também servem para os leitores, futuros eleitores, darem de caras com a salganhada de ideias que assaltaram algumas das listas. O coro afinado na contradição em ré-maior…

EXCESSOS E MÍNGUAS DE UMA SENHORA CHAMADA IDEOLOGIA

Helena Vaz da Silva, por exemplo, diz não se preocupar com elocubrações ideológicas:

"Ideologias que deixaram de dominar, segundo diz. Porque se vive 'numa era de pragmatismo e de consenso' ".

Já Carvalho da Silva diverte-se a teorizar sobre a abundância de ideologias no mundo actual. Vaz da Silva já não vai em ideologias, mas para Carvalho da Silva "que las hay, las hay".

Dando jus ao título que dá nome à "Cara" de Antunes de Sousa — "Um major ao ataque", o major solidário ataca, não as ideologias mas os partidos que dominam a cena política portuguesa, "uma ditadura e um monopólio insustentável dos principais partidos, o bando dos quatro, que passam um atestado de menoridade mental aos portugueses".

As "Caras" que respigámos são todas de corações a bater por um lugar lá fora que já era dado como certo pelas sondagens, ou com o coração a arder por saberem que, para Estrasburgo, só com passaporte de turistas.

LUGARES DE ELEIÇÃO

RESERVADO O DIREITO DE ADMISSÃO A NÃO ELEITOS

Não é o caso doutros perfis que respigámos, de gente que já tem o lugar certo no reino da eurocracia, conseguido não por eleição, mas por concurso altamente disputado ou por convite pessoal.

Era ainda o jornal "Público" a dar-nos a conhecer o rosto de João Faria, funcionário da União Europeia, 37 anos. Um dos 528 portugueses de eleição, que à época integravam os quadros da função pública europeia. Uma viagem pelo universo de João Faria, para ficarmos a saber que pouco conviveu com os belgas, que ouviu muito mais fado em Bruxelas do que em Lisboa, enquanto por Bruxelas andou. Há poucos meses, a seu pedido, veio para Lisboa, cidade que tem em Nuno Antas de Campos um dos homens mais bem informados, a acreditar no perfil que lhe é traçado pro Carlos Magno, no jornal "Expresso":

"Ou melhor, é um ex-jornalista que depois de pisar os corredores do poder pode dar-se ao luxo de guardar as notícias para si próprio. E para os amigos que lhe frequentam a conversa". Campos é director do Gabinete do Parlamento Europeu em Portugal, e o seu perfil diz que já foi director do Futebol Clube do Porto.

Imagem de topo: Cromo da colecção "Europa", da Panini

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