Livros para serem lançados

livra.gif (62088 bytes)"Nas capas, as imprescindíveis doze estrelas amarelas em fundo azul e as palavras Europa, Comunidade Europeia ou, então, Maastricht, bem destacadas. Junte-se-lhe o interesse nacional pela coisa, supostamente maior em época de eleições para o Parlamento Europeu e de acesos confrontos políticos sobre as perdas e ganhos de soberania de Portugal em Bruxelas. O resultado são livros, porventura, de venda garantida, colocados bem à vista nos escaparates de toda a livraria que se preza e já não nas recônditas secções de material especializado, apenas conhecidas pelos fanáticos e pelos especialistas".

O texto que reproduzimos serve de introdução a um artigo assinado por Teresa de Sousa, jornalista do "Público", artigo em que escalpeliza a moda dos livros sobre a Europa. O antetítulo — "A moda dos livros 'azuis' sobre a Europa", e o título — "Propaganda, divulgação e pouco mais" dizem quase tudo sobre a avaliação feita pela jornalista quanto à qualidade e tom oportunísticos dos livros azuis a proliferar nos escaparates em tempo de eleições europeias.

O lançamento de livros começa a tornar-se tradição em qualquer acto eleitoral. O candidato que lança um livro ganha estatuto pelo simples facto de o publicar. Os staffs eleitorais lá farão as suas contas, e já devem ter descoberto que candidato que se preze precisa de um livrinho nos escaparates, eleição sim, eleição sim.

A comunicação social desempenha aqui um papel de relevo nesta engrenagem, por acorrer sempre à "vernissage" do lançamento da douta obra. E parece ser isso o que mais interessa a quem os escreve, e ao estado-maior do partido a que pertence o candidato. Sim, que feitas as contas, serão muito mais os portugueses a saber que o político "X" lançou um livro do que aqueles que o irão ler.

Ler este tipo de livros editados em períodos eleitorais até pode ser perigoso, o leitor-futuro eleitor pode sentir-se defraudado, notar que gastou uns tostões adquirindo um livro feito à pressa que a campanha estava aí à porta. Revoltado, pode até mudar o seu sentido de voto. Curioso seria talvez investigar as verdadeiras tiragens destes livros, e as suas vendas efectivas, para depois se aquilatar se a eficácia residia na leitura ou apenas no marketing do seu lançamento.

Isto para além da publicação de um livro permitir outro truque, já denunciado em anteriores eleições. Se o candidato não pode aparecer na pantalha televisiva afirmando ser o melhor, já pode no entanto aparecer a anunciar o seu livrinho. E valha-nos o facto de nenhum candidato se ter lembrado até hoje de dividir a sua obra em fascículos, doutra forma teríamos publicidade durante meses e lançamentos semanais.

OS LIVROS QUE (SÓ) VALEM PELO LANÇAMENTO MEDIÁTICO

Os relatos das cerimónias de lançamento dos livros "eleitorais" também nos mostram que, mais do que o conteúdo do livro, interessa divulgar quem por lá apareceu, e quais as ausências. A chuva de doze estrelas que obrigatoriamente carimbam os livros saídos em período de eleições europeias, chama outra chuva, a das estrelas políticas apaniguadas do político-escritor. O título do jornal "Público", referente ao lançamento de um livro assinado por António Capucho revela isso mesmo — "CHUVA DE ESTRELAS". Passando para o "Diário de Notícias", e para a cobertura do mesmo evento, atentamos no título "A (SILENCIOSA) AJUDA DE CAVACO".

Se o gabinete de propaganda do candidato ainda quiser fazer render mais o peixe, a publicação do livro começa a ser notícia ainda antes do seu lançamento. É notícia o anúncio de que determinado candidato ou determinado partido vai lançar um livro, como é notícia oferecer aos eleitores algumas pinceladas do que vai ser o livro a lançar e publicar.

Sobre o livro de Manuel Monteiro, lançado a 27 de Abril, já o jornal "Diário de Notícias" dava conta da sua estrutura, na sua edição de 15 do mesmo mês:

"(…) Além deste prefácio [ de Manuel Monteiro, e do qual era feita referência detalhada no artigo assinado por Paula Ferreirinha], o DN teve acesso em primeira mão aos textos de Paulo Portas, sobre federalismo, Rosado Fernandes, sobre a PAC, Ferraz da Costa, sobre o nosso modelo de desenvolvimento económico no contexto europeu" (Diário de Notícias, 15 de Abril de 1994)

Ali estava, pois, a gentileza dos homens do CDS, generosos ao ponto de facultarem à jornalista uma leitura em primeira mão dos textos de tão ilustres prosadores. Uma primeira mão de um livro de Manuel Monteiro não é uma primeira mão de um livro de Eco ou Rushdie, mas paciência…

Apesar de tudo, Teresa de Sousa, jornalista avisada nestas coisas da Europa dados os anos que passou em Estrasburgo e Bruxelas, nota um sinal positivo nesta ténue ajuda dos políticos ao revigoramento do nosso marasmo editorial — sinal que reside no próprio facto de tais livros serem escritos por portugueses, o que não era hábito até há pouco tempo, no que toca às questões europeias:

"Há bem pouco tempo, salvo raras e honrosas excepções de especialistas e investigadores universitários nacionais, o material disponível nas livrarias para estudiosos era quase sempre em edições estrangeiras ou resumia-se a traduções de alguns manuais de divulgação e de consulta do género 'ABC das Comunidades Europeias' " (Público, 21 de Maio de 1994)

A LER CARLOS COELHO É QUE SE COMEÇAM A PERCEBER AS LEGISLATIVAS DE 95

Estilo "ABC" seguido pelo menos no caso do candidato a eurodeputado Carlos Coelho, que viu um seu livro lançado pela JSD. Em co-autoria com Pedro Gomes, este livro pretendia, segundo os seus promotores, contribuir para "um melhor esclarecimento dos eleitores".

"No prefácio, o líder da JSD, Passos Coelho, afirma pretender deste modo 'centrar a discussão sobre o essencial do que vai estar em jogo nas eleições" de domingo" — lia-se no jornal "Público" de 9 de Junho, três dias antes das eleições. Qualquer problema na máquina laranja deve ter obrigado a uma saída tão tardia do livro…

Como o futuro aos jovens pertence, o livrinho dos "jotas" já pretende tratar dele, do futuro, pois claro:

"Organizado em perguntas para as quais os autores apresentam as respostas, o livro quer ser ainda, segundo o líder dos jovens sociais-democratas, a antecipação do debate sobre a Europa que fará parte da agenda dos partidos na campanha eleitoral para as eleições legislativas do próximo ano" (Público, 9 de Junho de 1994)

UM LIVRO PARA PRESTAR CONTAS

Livros para esclarecer a opinião pública, para antecipar próximos debates, mas também para prestar contas do trabalho produzido enquanto eurodeputados. É o caso do livro dado à estampa Carvalho Cardoso, eurodeputado pelo CDS. Intitulado "Temas Europeus — Sete anos de actividade no Parlamento Europeu", o livro pretendia dar conta da actividade do eurodeputado centrista no septénio em que representou o seu partido no PE. Na cerimónia de lançamento contou com a prestimosa ajuda estrelar de Lucas Pires. Mas nada de confusões, que o professor é agora candidato pelo PSD. A notícia rotula os dois como eurodeputados do Partido Popular Europeu (PPE). (Diário de Notícias, 20 de Maio de 1994)

Um colega de Cardoso, no caso Manuel Porto, já antes lançara um livro intitulado "Portugal, o Uruguai Round e a União Europeia", compilação das intervenções que o eurodeputado proferira no Parlamento Europeu.

Lopes Porto justificaria a edição como "um contributo para a defesa da Cultura e das garantias mínimas do nosso país no âmbito dos acordos do Uruguai Round". (Diário As Beiras, 23 de Abril de 1994)

O LIVRO DE MANUEL MONTEIRO QUE NÃO É DE MANUEL MONTEIRO

Já há pouco referíamos o curioso do levantar do véu quanto ao conteúdo de um livro ( no caso o assinado por Manuel Monteiro), benesse concedida pelo estado-maior centrista. No caso concreto de livros como este que poucos se darão ao trabalho de comprar e menos ainda de ler, interessará aos staffs partidários que se fale do livro antes dele sair, do que esperar pela sua posterior escalpelização.

A atentar no comentário de Teresa de Sousa ao livro de Manuel Monteiro, percebe-se como avisados andam os homens da máquina centrista:

"Manuel Monteiro e Luís Sá — os líderes das listas europeias do CDS-PP e do Partido Comunista — têm os seus nomes impressos em letra destacada em duas das mais recentes edições da Europa-América. Aparentemente, seriam eles os autores das obras, fornecendo a qualquer eleitor desejoso de votar em consciência os meios de conhecer os correspondentes pensamentos em matéria de política europeia. Não é assim, todavia, particularmente no que se refere ao livro de Monteiro, uma reprodução quase fiel (só falta o retrato do líder centrista) do cartaz que vemos pelas ruas de Lisboa em gigantescos 'out-doors'. Chama-se 'Viva Portugal', tem como subtítulo 'Uma nova ideia da Europa' e, em letras minúsculas, os nomes dos dezassete autores que verdadeiramente escrevem a obra. Desde Adriano Moreira e Rosado Fernandes até ao indispensável Paulo Portas, passando por nomes como Lobo Xavier, Jaime Nogueira Pinto, Pedro Ferraz da Costa ou Ferraz de Carvalho. Quase nenhum sector da política nacional é deixado de fora, muito embora variem a qualidade e a clareza das exposições, que chegam a incluir a do sr. Manuel Ramirez, presidente da Associação Nacional dos Industriais das Conservas de Peixe, inevitavelmente um defensor intransigente da 'preferência comunitária' das sardinhas e um fervoroso inimigo de Marrocos".

Lembrando de seguida que o livro "pretensamente assinado por Manuel Monteiro, nada tem de escrito pelo líder centrista a não ser um breve e aborrecido prefácio, incapaz de exprimir uma ideia articulada do seu pensamento político", a jornalista considera, no entanto, de interesse alguns dos textos ali publicados, com especial ênfase ao de Leonardo Ferraz de Carvalho.

E PORTAS QUE NÃO SE LIVRA DA FAMA DE IDEOLÓGO DE MONTEIRO

Perigos de que não escapa quem formata livros desta forma também são denunciados por Teresa de Sousa. Se Monteiro tenta sempre negar o que para os jornalistas é óbvio — o facto de Monteiro se inspirar exclusivamente em Paulo Portas, erigido em Marcelo Rebelo de Sousa dos factos políticos após a hibernação deste —, o facto de convidar Portas para o painel de redactores da compilação centrista deixa-o exposto de novo à dúvida:

"O depoimento que talvez valha a pena ler com mais atenção para 'descodificar' o discurso nacionalista mais ou menos confuso e contraditório de Manuel Monteiro é, sem dúvida, aquele que é assinado por Paulo Portas. Se alguém tinha dúvidas sobre o verdadeiro inspirador das 'performances' do líder centrista, fica esclarecido. Está lá tudo, por pontos e alíneas, em trinta páginas de escrita agradável, intitulada 'O Erro federal'".

CHUVA DE ESTRELAS, OU CHUVA DE AUSÊNCIAS?

Confronto de duas notícias publicadas pelos jornais "Diário de Notícias" e "Público", ambas referentes ao lançamento do livro de António Capucho: enquanto um dos diários produz uma notícia estrelar, o outro avança com um registo das ausências.

As não-presenças, o não-acontecimento dentro do acontecimento que é o lançamento de um livro, é critério de noticiabilidade para o "DN". Desde logo na abertura do artigo:

"Cavaco foi, mas não falou; Eurico não foi — estava para a SIC. Ontem, em Lisboa, no lançamento de um livro de António Capucho, foram mais notadas as ausências que as presenças".

Segue-se o texto:

"Silencioso mas presente, Cavaco Silva deu ontem mais uma ajuda à campanha social-democrata para o Parlamento Europeu, comparecendo no lançamento do livro de António Capucho intitulado: 'Como é que funciona a União Europeia?' Na Livraria Barata, foi notada a ausência de muitos dos principais dirigentes do PSD. De entre os quadros 'laranja' que integram o executivo de Cavaco, apenas apareceram os ministros Marques Mendes, Falcão e Cunha e Mira Amaral e os secretários de Estado Pedro Santana Lopes e Isabel Corte Real.

Eurico de Melo também não foi — dirigia-se nessa altura para a SIC, para mais um debate, desta vez com Manuel Monteiro". (Diário de Notícias, 8 de Junho de 1994)

Já o título do jornal "Público" diz tudo sobre a diferença de perspectiva com que foi encarado o mesmo evento: "CHUVA DE ESTRELAS", assim veio ao mundo o texto assinado por Áurea Sampaio. Título assim justificado:

"António Capucho conseguiu ontem uma chuva de estrelas 'laranja' no auditório da Livraria Barata, em Lisboa (…) Além do próprio primeiro-ministro, cuja 'deferência' em aceder ao convite o autor salientou, acompanharam Capucho nesta estreia editorial nada mais nada menos do que quatro ministros — Falcão e Cunha, Marques Mendes, Mira Amaral e Paulo Mendo —, dois secretários de Estado, Santana Lopes e Isabel Corte-Real, o presidente da distrital de Lisboa, Arlindo de Carvalho, e vários deputados entre os quais, Rui Carp, Fernandes Marques, Manuela Aguiar, Conceição Monteiro, Manuel Geraldes, João Salgado…entre outras personalidades de militantes lisboetas, alguns com responsabilidades autárquicas como Vítor Gonçalves ou Virgínia Estorninho".

Só depois vinha a referência à única ausência notada: a de Eurico de Melo "por certo já em estágio para o previsivelmente difícil debate com Manuel Monteiro na SIC". Referida a ausência, a jornalista faz questão de a desvalorizar:

"Mas a ausência de Eurico em nada ensombreceu a cerimónia, tanto mais que a breve apresentação da obra a cargo de Carlos Pimenta por certo contribuiu para que muitos dos presentes dessem por bem empregue a deslocação".

"ESTOU AQUI POR CAUSA DO ANTÓNIO"

O lançamento de um livro serve para humanizar um pouco a campanha eleitoral, permitindo referências familiares entre os confrades partidários. Carlos Pimenta, apresentador de serviço à obra, fez questão de sublinhar — "Eu estou aqui por causa do António"—, recordando ainda as provas de confiança que este lhe tem dado ao longo de vinte anos:

"Sobretudo aquela que o fez saber em casa, ao pequeno almoço e através da rádio — 'ia-me engasgando' — que era o novo Secretário de Estado do Ambiente".

Para mais, Capucho ainda tem ministrado vários ensinamentos a Pimenta, que afirmou "ter colhido o hábito de fazer política com rigor intelectual e com ética".

E quanto ao livro, nada se diz?

"A melhor obra sobre a Europa destinada ao grande público" — sentenciou o eurodeputado.

"É exaustiva porque analisa todos os artigos, mas sintética e clara porque explica em português corrente quais as implicações para todos nós".

Outro motivo de agrado para Carlos Pimenta, o facto do autor acabar por demonstrar que "a Europa não é só mercado, mas um espaço com alma" onde há um "projecto de solidariedade e de combate contra a exclusão social".

"A Europa, espaço de liberdade, é a grande dádiva de civilização europeia ao mundo" — rematou Pimenta.

Discurso que "tocou" a jornalista do "Público", o que se denota no comentário com que fecha o artigo por si assinado:

"Eis o tipo de discurso que não tem emergido da campanha social-democrata, inibida numa rede chamada federalista para a qual se deixou arrastar pelo seu parceiro da direita. Inibido, só nos últimos dias o PSD começou a mostrar estes dois candidatos cuja imagem colhe junto dos sectores mais progressivos do eleitorado 'laranja'. Erros que costumam pagar-se caro sobretudo em momentos decisivos".

O artigo do "Diário de Notícias", assinado por João Pedro Henriques, reproduz a justificação da publicação do livro, na boca do autor:

"Capucho referiu que 'existe uma fortíssima desinformação' sobre a Europa, salientando que o livro não é mais do que 'um á-bê-cê sobre a União Europeia (…) e elogiou ainda a comunicação social, pelo 'esforço notável' que tem feito para melhorar o acompanhamento das questões europeias".

UM CÁUSTICO PREFÁCIO PRESIDENCIAL

Se Pimenta lembrava agora que a "Europa não é só mercado, mas um espaço com alma", Mário Soares já tinha posto o dedo na ferida mês e meio antes, no seu livro "Intervenções 8", cujo conteúdo obteve significativa repercussão dos media.

Falando do prefácio do livro, Ângela Silva, jornalista do "Público", notava: "O futuro da Europa é uma preocupação tranversal ao longo de quase todo o texto, onde Mário Soares se distancia claramente da Europa 'tecnocrática, inspirada por um pragmatismo de curtos horizontes', e onde confessa temer que as eleições europeias de Junho 'possam vir a reforçar o cepticismo existente'".

"Na opinião de Soares, falta 'um suplemento de alma' na abordagem das questões europeias, e a vocação 'indiscutivelmente federalista' do projecto europeu consagrado em Maastricht é reafirmada, neste prefácio, como única saída possível se se quer falar de uma verdadeira União Europeia" — acrescenta a jornalista.

"Este é, quanto a mim, o problema-chave da actual conjuntura", afirmava Soares no prefácio de "Intervenções 8", acrescentando:

"Cada vez há menos vozes a defender a União, com tudo o que ela politicamente significa, e cada vez mais entusiastas de um simples espaço aberto ao livre comércio, sem outros constrangimentos (…) Como se fosse possível falar em União Europeia sem instituições supranacionais, sujeitas a um eficaz controlo democrático, e sem objectivos políticos, sociais e culturais comuns, para além, naturalmente, do grande mercado único".

No livro, Soares associava o impasse na União Europeia à falta de "homens políticos de qualidade e à altura do momento". Quanto a Portugal, o alerta para que o país se não desinteresse da evolução europeia, "pensando que tudo o que lhe importa é tão-só que se confirmem as remessas de fundos que dela recebe e que estão assegurados".

Um prefácio a pretender mexer com a classe política, e bem patente no apelo do Presidente da República:

"Que as eleições de Junho possam dar lugar a um amplo debate sobre esta temática.(…) É urgente que assim aconteça"

A jornalista infere aqui o recado de Soares à classe política:

"Um recado que poderá ter como destinatária a quase totalidade de partidos do espectro político português — onde o apego à causa europeia sofreu uma inflexão táctica, determinada, em grande parte, pelo discurso da direita —, mas que surge essencialmente direccionado para o Governo. 'Não basta ser um aluno aplicado — como se tem dito — da aula europeia', afirma Soares, 'importa avaliar criticamente o caminho que de facto está a ser seguido, marcar uma posição própria'".

O prefácio do livro "Intervenções 8" não poupava críticas ao que Soares apelidava de "política dos pacotes":

"Dir-se-ia encontrarmo-nos de novo como nos tempos dos 'fumos' da Índia ou dos 'quintos' do Brasil — quando enormes massas de riqueza desabaram sobre Portugal sem que daí adviessem benefícios concretos e duradouros para o país, no seu conjunto".

Ao passar em revista o ano de 1993 — escreve Ângela Silva —, "Mário Soares põe em evidência uma crise profunda do sector produtivo, 'fortemente atingido pelas obrigações de convergência nominal' que, em sua opinião, 'foram entendidas num sentido porventura demasiado estrito'. E mostra-se preocupado com a forma como foi gerida a 'euforia dos fundos', matéria em que traça um quadro negro".

"Em alguns casos" — continua a citação a Soares — " os fundos escaparam-se como água entre os dedos, não se enxergando bem os resultados positivos que terão tido; noutros, como no caso da agricultura, políticas contraditórias quase os anularam".

"Agora" — conclui o Presidente —, "as facturas que, por diversas vezes, avisei que iriam chegar, estão a pagamento, sem remissão". (Público, 21 de Abril de 1994)

OS BONS LIVROS PARA COLMATAR A POBREZA DOS DEBATES

Para além das referências aos livros escritos por candidatos às europeias, a imprensa fez referência a outras obras sobre a Europa saídas no período da nossa pesquisa. Livros de autores portugeses e estrangeiros.

Nos portugueses, saliência para "Europa Desencantada", de Eduardo Lourenço, obra comentada pela pena de Guilherme d'Oliveira Martins, nas páginas do "Diário de Notícias. Em pleno período de pré-campanha, o articulista punha a pedra de toque na pobreza do debate europeu:

"O debate europeu vai decorrendo pobre e superficial. Ressaltam medos, fantasmas e ilusões. Poucos têm sido os momentos de autêntica e corajosa colocação dos problemas essenciais. Fala-se de federalismo e do perigo uniformizador, mas pouco se diz sobre a natureza actual do Estado-Nação e sobre as suas novas funções de mediação e de regulação. Receia-se a União Política mas nada é proposto de consistente e de credível para criar uma vontade política legítima comum — envolvendo cidadãos e instituições democráticas" —sublinha Oliveira Martins, constatando que, com a pré-campanha andada "já verificámos que os críticos e os neonacionalistas esgotaram por completo os seus argumentos".

"Não há um elemento novo, não há uma agenda para 1996, não há pensamento estratégico. Só há ideias vagas" —lamenta-se Martins, para quem — e lá encontramos de novo implícito o nome de Paulo Portas — "não basta o talento e a vivacidade de quem inspira o dr.Monteiro", sendo preciso "mais aplicação e rigor, que vão faltando".

É a publicação de livros sobre a Europa a abrir terreno à crítica das obras mesclada de crónica sobre o dia a dia do período eleitoral para o PE. Martins consegue nesta crónica o justo equilíbrio de 40 linhas dedicadas à introdução, e outras tantas referindo-se expressamente ao livro, onde perpassa a ideia de uma Europa "lugar da complexidade, da indefinição, da incerteza".

"E logo não pode ser base de um sucedâneo para as ideologias decaídas. Daí a importância do 'desencantamento'" — sublinha Martins, referindo-se ao livro de Eduardo Lourenço, para quem será necessário contribuir para uma utópica "mitologia europeia", feita de "cultura do diálogo", encontros e desencontros, interesses e valores.

E Martins conclui:

"Nós todos europeus estamos, afinal, na barca de Ulisses. É a sobrevivência de todos que conta". (Diário de Notícias, 8 de Maio de 1994)

Um mês mais tarde, encontramos de novo Guilherme d'Oliveira Martins perguntando-se, a cinco dias das eleições, "como vamos de debate?" E a constatação é desoladora:

"Apesar da irregularidade e da preferência pelos temas conjunturais, pode dizer-se que o tema europeu tem estado na ordem do dia. Infelizmente, há quem se limite a repetir até à exaustão pobres argumentos primários, revelando falta de estudo e de campanha — o que vai permitindo que algumas respostas se situem no mesmo registo, primário e tremendista" — constata Guilherme D'Oliveira Martins, na introdução da sua crítica à edição nº 69 da revista "Pouvoirs", edição intitulada "Europe de la Communauté à l'Union". (Diário de Notícias, 7 de Junho de 1994)

O PÂNTANO DE IDEIAS EM QUE MERGULHOU A QUESTÃO FEDERALISTA

É ainda a alegada pobreza dos debates e a detectada deturpação da questão federalista que suscita a atenção de João de Almeida Santos, quando se refere, em duas edições do "Diário de Notícias", ao livro de Altiero Spinelli, intitulado "Il Projetto Europeo":

"(…) O primeiro resultado de uma reflexão deste tipo será o abandono desse pântano de ideias que tem envolvido a discussão da questão federalista, onde todos falam e poucos acertam. Ajuda também, esta reflexão, a superar os condicionamentos do discurso pragmático a que são obrigados quantos falam em registo estritamente político".

De notar que o comentário a esta obra surge primeiro em versão compacta no caderno principal do "Diário de Notícias", de 29 de Maio, e depois ocupando uma página no suplemento "Cultura" do mesmo jornal, publicado a 2 de Junho.

EM INGLATERRA TAMBÉM FALTA QUALQUER COISA AO DEBATE

Na revista "Valor" encontramos também referência a duas obras, de teor bastante diferenciado, mas tendo ambas a Europa como denominador comum. Numa fala-se do federalismo e comércio livre; na outra da Igreja e a Nova Europa. Ambos os títulos editados em Portugal.

A obra de Jean-Luc Migué, "Federalismo e Comércio Livre", surge, para o comentador daquela revista especializada em assuntos económicos, no contexto da polarização do debate sobre a Europa que se verifica na Grã-Bretanha.Também ali o debate se move em "terrenos muito emocionais":

"Os economistas têm vindo a estudar algumas das questões, tais como os acordos monetários europeus. Mas, surpreendentemente, há muito poucas análises económicas feitas, em relação aos problemas de maior amplitude, levantados pela Grã-Bretanha enquanto membro da Comunidade, sobretudo no que diz respeito à moção de ratificação do Tratado de Maastricht".

É o défice do debate europeu que, afinal de contas, não constitui chaga exclusiva do parceiro português. (Valor, 31 de Março de 1994)

A EUROPA E A FÉ

Já o livro do Cardeal Ratzinger, "A Igreja e a Nova Europa", deixa a proposta de dar de novo lugar à exigência ética, não à margem mas no centro da vida político-social europeia.

"Nesta perspectiva, os cristãos podem dar um contributo significativo, com a sua fé e o seu empenhamento social, de tal modo que a Europa, que no passado projectou nos outros continentes as suas tensões e divisões, possa colaborar na paz e no desenvolvimento mundiais" — diz a revista "Valor", considerando a obra de uma actualidade surpreendente, distinguindo-se pela amplitude da análise, pela linearidade da tese e pela clareza da proposta.

"Trata-se de uma lúcida lição para a nova Europa, mais uma vez chamada a ser imagem do mundo". (Valor, 18 de Fevereiro de 1994)

PREGUIÇOSOS!

A concluir, uma referência curiosa. É que, na política, também há quem prefira poupar a vida a algumas árvores, não gastando papel em livros eleitorais. Foi o caso dos cabeças de lista do PSD e do PS, que recusaram o convite do editor Lyon de Castro para escreverem um livro sobre as eleições europeias. "Falta de tempo" foi o argumento por ambos invocado.

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