Campanha Titular

14a.gif (83069 bytes)

blue.gif (994 bytes)Uma campanha eleitoral revista através dos textos publicados na imprensa pode fazer-se através de abordagens diversas. Uma viagem pelos títulos das notícias que tiveram como pano de fundo a Europa e as eleições de 12 de Junho permite-nos detectar opções jornalísticas as mais díspares, mas ao mesmo tempo alguns fios condutores dos profissionais da imprensa, mesmo trabalhando em diferentes órgãos de comunicação social.

De há muito que se vem notando a tendência para os títulos se desamarrarem do positivismo que os tornaria estritamente informativos, ganhando cada vez mais tónus estéticos e retóricos a caminho da função de "montra" das notícias que suportam: os títulos ajudam a vender a notícia, são a porta de entrada para a cabeça da notícia e para o seu lead, quando estes são incluídos na trama narrativa.

A poética e a retórica dos títulos, os jogos de palavras de que muitos são compostos vão afastando essas "montras" da sua função estritamente informativa. Resta saber se essa tendência — que em Portugal vai começando a fazer escola em diversos jornais, e que se não reduz a "O Independente" como muitos mais desatentos podem pensar (apesar de ser este o jornal que mais insiste nessa linha) —, conseguirá ou não o objectivo-base da existência de um título: convidar, seduzir, obrigar os leitores a consumirem as notícias.

É pergunta de difícil resposta. Quando nos deparamos com títulos na forma interrogativa, podemos ficar perplexos, perguntando-nos se o leitor tolera ou não que o jornalista escarrapache dúvidas ou se está apenas disposto a aceitar certezas.

Colocando-nos na perspectiva inversa, salientaremos então o facto dos títulos rematados com um ponto de interrogação deixarem uma pergunta no ar, criando porventura o suspense necessário para agarrar o leitor à notícia.

Já noutros casos, serão talvez as obrigações do formato, a escassez de espaço que levam os jornalistas a utilizarem siglas ilegíveis para a maior parte dos cidadãos. No caso concreto do tratamento noticioso das questões europeias, é sabido o elevado grau de desconhecimento dos portugueses nesse campo. E polvilhar títulos com "UEM", "UEO", "PAC", "PESC" e outras mais por certo convidarão o leitor a deixar a notícia virgem de leitura, saltando para a seguinte ou mudando de página. Ou, porque não, fechando o jornal.

Mas também aqui não cremos se possa expender opinião definitiva. Conhecido o número restrito de portugueses que lê jornais, pode então pensar-se (e perdoe-se-nos a redundância) que os seus consumidores são cidadãos informados, familiarizados com o jargão que vai dominando a actualidade e no qual se insere a moda das siglas.

O ritmo cada vez mais apressado da vida moderna, que nos leva também a dizer mais em menos tempo, impregna de siglas a própria linguagem quotidiana. Todos compreendemos que a lei "x" nos obriga a andar com o B.I. no bolso, que o Manel é eficiente q.b., que se estivermos doentes o melhor é irmos aos HUC.

Fica a dúvida registada. E a constatação de que, nas notícias sobre a Europa, as siglas aparecem bastantes vezes.

Outra eventual dificuldade de leitura dos títulos prende-se com os neologismos, que a temática europeia convida a fabricar. Para lá destes, há em vários casos a utilização de palavras oriundas de outras línguas, o que não é exclusivo das notícias sobre a Europa, mas se estende a todo o noticiário em geral, com alguns jornais a abusarem desta tendência.

Seguindo a tendência geral, notámos nas notícias que respigámos para este trabalho o beber na fonte dos provérbios, ditados, lugares-comuns, para a construção de alguns títulos. O mesmo se diga dos títulos construídos à boleia do sucesso dos títulos dos filmes…que fizeram sucesso.

Outro registo tem a ver com os títulos fabricados à boleia da actualidade. Um facto curioso, este, o de a novidade imanente à notícia ter como chamariz factos sonantes dias antes, mas cuja actualidade se torna exangue cada dia que passa, recuperando depois parte do seu fôlego graças aos títulos de notícias que relatam factos que nada terão a ver com essa actualidade diferida.

Esta viagem pelos títulos serve também para nos apercebermos, já não das montras de cada estabelecimento comercial com notícias para vender, mas de todo o centro comercial onde as notícias sobre a Europa estiveram expostas durante os seis meses que compõem o universo dos nossos respigos.

Através da análise dos títulos da imprensa, podemos verificar, ou ficar pelo menos com uma ideia sobre o tónus de uma campanha, se esta terá sido feita mais pela positiva, através da apresentação de propostas concretas, ou se pela negativa, eivada de tom belicoso, do "A" contra o "B", do insulto a substituir o projecto alternativo.

Neste caso concreto, é sempre necessário levar em linha de conta que o que se passou efectivamente numa campanha não está nem poderia materialmente estar traduzido em exaustão em espaços tão minúsculos como os títulos. A análise do conteúdo dos textos integrais das notícias publicadas é um indicador muito mais fiel para podermos chegar a esses resultados.

Servirá, pelo menos, para nos darmos conta da estratégia de selecção de assuntos e episódios de campanha que os jornalistas resolveram erigir à dignidade de título. E aí, é fácil adivinhar a predominância do tom belicoso, muitas vezes do fait-divers, da frase que valeu por todo um discurso, da frase que o político preparou arduamente para passar nos dez segundos que a televisão destinou para discurso directo do comício deste ou daquele partido.

Verificaremos ainda os mecanismos de construção de uma pretensa objectividade, através do que Gaye Tuchman chamou o "uso judicioso das aspas". As aspas aparecem bastas vezes enquadrando palavras estrangeiras, insultos proferidos por um candidato ou termos mais fechados do vocabulário eurocrata.

Uma análise dos títulos também nos deixará uma ideia das apostas feitas pelos jornais e que saíram erradas, dos vaticínios considerados seguros mas que, conhecidos os resultados se vieram a desmentir. Como podemos ainda dar conta da cautela de algumas expressões "em guarda", perante o carácter escorregadio e de difícil confirmação de algumas notícias, quase sempre difundidas pelos estados-maiores partidários com intuitos de contra-informação.

A Europa, muito amada ou mil vezes detestada, viu-se retratada nos títulos de várias maneiras. O ELDORADO EUROPEU, A EUROPA DO AMOR, EUROPA DOENTE, EUROPA DESENCANTADA…

No que toca a neologismos tendo a Europa a genital, sublinhámos EUROGIRO, EUROENTUSIASMO, EUROMOEDA, EURO-ELEIÇÃO, EUROPIRISMO, EURO-REGIÃO, EUROPEÍSTA, EURO EURICO, EUROMANGUITO, EUROPERPLEXOS, EURODEMOCRACIA.

No que concerne às formas dos jornalistas se referirem em título à Europa e às instituições europeias, notámos grande variedade, amplificada em vários casos pelo uso de siglas diversas. E convém chamar aqui a atenção para o uso das siglas em título, o que pode dificultar a leitura aos não entendidos no assunto, desmotivando-os para avançarem pelo corpo do artigo. Nalguns casos, notámos que a utilização de siglas era função do reduzido espaço disponível para o título.

EUROPA predomina de longe em relação às outras denominações, sendo conveniente ressalvar que aqui se incluem também alguns títulos que não se referem apenas ao espaço comunitário, mas sim à Europa como continente, compreendendo, como é óbvio, países não pertencentes à União Europeia.

Assim, a palavra EUROPA surgiu 93 vezes nos títulos por nós seleccionados, seguida da sigla UE, inscrita em títulos por 23 vezes. A sigla UE a ser preferida à designação por extenso (UNIÃO EUROPEIA), que apareceu apenas por seis vezes, menos ainda que a palavra UNIÃO, por nós detectada em oito títulos. Jornalistas houve que escolheram a palavra DOZE — três vezes na nossa contabilidade. CE apareceu quatro vezes, COMUNIDADE duas vezes, PARLAMENTO EUROPEU em quatro títulos, a sigla correspondente PE em três. BRUXELAS surgiu por 13 vezes, enquanto ESTRASBURGO apenas três vezes nos títulos com que trabalhámos.

Referência ainda a outras expressões e siglas referentes à União Europeia, a seguir mencionadas:

PPE — 4

BEI — 4

MAASTRICHT — 3

SME — 3

PEDIP — 2

UEM — 2

ECU — 2

BERD — 1

PESC — 1

FSE — 1

MERCADO ÚNICO — 1

UEO — 1

PPI — 1

PEDIP II — 1

LEADER II — 1

FEDER — 1

Dos títulos "bélicos" damos conta em texto autónomo.

Sigamos para os títulos reflexo de eleições tratadas como uma corrida, com partida e linha de meta como as manifestações desportivas, e onde o tempo e demais obstáculos carecem de ser transpostos primeiro e melhor do que os elementos de outras equipas. Afinal de contas, nada que a Europa possa estranhar, habituada que está à caixa de duas velocidades…

As sondagens que se vão publicando meses antes da campanha eleitoral propriamente dita começar, ajudam a transformar a pugna eleitoral num campeonato em que, jornada após jornada, se vão somando vitórias, empates e derrotas, e vaticínios sobre o eventual vencedor. As performances dos candidatos, as iniciativas dos partidos a que pertencem vão-se quantificando em golos, tendo como árbitro o público inquirido pelas empresas da especialidade. Se no futebol, por exemplo, um só árbitro vê as suas decisões reiteradamente criticadas, que dizer então quando milhares de árbitros diferentes se vão prounciando semana após semana quanto às jogadas dos políticos merecedoras do estatuto de golo? Responde a comparação entre os vaticínios das sondagens, e os resultados efectivos das eleições. No caso concreto das europeias, esses vaticínios deixaram muito a desejar.

Avancemos então para a corrida aos títulos de corrida, a começar pela colocação dos desportistas na sua equipa, angariação de novos jogadores, contratação de estrangeiros, reivindicação de melhores postos, eventuais exclusões, dispensas, ou castigos no banco dos suplentes: MONTEIRO À CABEÇA; ROSADO FERNANDES COM MONTEIRO; "NÃO ENTRAVA NUMA LISTA COM LUCAS PIRES" (afirmação de Rosado Fernandes); MPT QUER AMBIENTALISTAS; UDP EXIGE "QUOTA" NA CDU; FERNANDO ROSAS CANDIDATO AO PE; CEM PERSONALIDADES APOIAM PSR; PEDRO CANAVARRO CANDIDATO EM ITÁLIA; A HORA DE EURICO; PSN-MADEIRA COM CDS; CINCO ESTRANGEIROS NAS LISTAS FRANCESAS; ANTUNES BOICOTADO PELO PSN DO NORTE; BARROS MOURA EM QUINTO PARA A EUROPA;

 

Alinhados os vários elementos do puzzle, há que dar lugar à corrida:

CDS ENTREGOU DOCUMENTOS PRIMEIRO;

PS COM PARTIDA FROUXA;

CDS DE LISBOA AFINA EQUIPA,

CDS ARRANCA EM CLIMA DE FESTA,

O PS GANHA AS SONDAGENS…,

MONTEIRO À FRENTE NAS SONDAGENS,

CAPUCHO A SUBIR,

A VOLTA A PORTUGAL DE VITORINO,

PEDALAR PELO VOTO,

VANTAGEM DO PS OBRIGA PSD A MUDAR;

BERLUSCONI DEVERÁ SUBIR;

PSD E MONTEIRO VOLTAM A LIDERAR;

"GUTERRES SÓ LIDERA O PS";

PS SOMA E SEGUE;

PSD PERDE EUROPEIAS;

TAPIE FORAGIDO SOBE NAS SONDAGENS,

CONTRA-RELÓGIO PARA CONVENCER DEPUTADOS;

ESPANHA PREPARA-SE PARA CORRIDA AO VOTO;

DRACMA JOGA À ZONA;

A ETAPA DO CONTRA-RELÓGIO;

LUÍS SÁ À DEFESA;

PSR JOGA AO DESEMPREGO NA BAIXA;

INDIFERENÇA VAI À FRENTE;

PERDAS E GANHOS;

NA RECTA DA VITÓRIA;

TUDO NO CONTRA-RELÓGIO;

AS APOSTAS DE DOMINGO;

ELEIÇÕES NÃO ESTÃO DECIDIDAS;

 

Por fim, a disputa pelos resultados, que ilustramos com poucos títulos, dado o facto de a maior parte deles ter sido inserida na disputa dos resultados da "guerra":

NARCISO: EMPATE EM CASA DO ADVERSÁRIO;

PS GANHA À TANGENTE;

EMPATE TÉCNICO;

ENTRE A DERROTA E A MAIORIA;

RESULTADOS ELEITORAIS SATISFAZEM PSD;

PSD ALIVIADO SUPERA DE LONGE TODAS AS PREVISÕES; TODOS GANHAM NA DINAMARCA;

0,4 PARA XXI?

RESULTADOS ELEITORAIS SÃO BONS E MAUS;

MRPP: MAIOR ENTRE PEQUENOS.

 

Como analisamos noutro texto, as eleições europeias não fizeram esquecer outros combates eleitorais, considerados de mais relevância para o futuro do país, dos partidos e da sorte dos seus líderes. O próprio primeiro-ministro chegou a aparecer em título, desvalorizando as eleições europeias. Sem mais delongas, que o desenvolvimento do tema se faz, como já dissémos, noutro espaço deste site, deixamos aqui menção dos títulos que nos lembraram outros campeonatos:

DE OLHOS POSTOS NAS LEGISLATIVAS

CAVACO DESVALORIZA ELEIÇÕES EUROPEIAS

CRAVINHO E O FIM DAS TRÉGUAS POLÍTICAS NO PS

ANTEVÉSPERA DAS LEGISLATIVAS

PROBLEMAS INTERNOS CONTAM METADE NAS EUROPEIAS

PSD PERDE LEGISLATIVAS

RESULTADO DAS EUROPEIAS PODE FAZER CAIR GOVERNO BELGA

ELEIÇÕES DECIDEM FUTURO DE LÍDERES

PS GANHA LEGISLATIVAS

"PS DEVE REPENSAR A LIDERANÇA"

COMO DESVALORIZAR A VITÓRIA DO PS

GUTERRES: MESES DIFÍCEIS

COM OS OLHOS EM 1995

CONTAS PARA O FUTURO

VITÓRIA COM REFLEXO PARA 95

CDS/PP VITORIOSO VIRADO PARA AS LEGISLATIVAS

 

PRESIDENCIAIS 96: CAVACO EM PRIMEIRO

PCP JOGA NAS PRESIDENCIAIS

PRESIDENCIAIS 96: EANES FORTÍSSIMO

LUCAS MAIS LONGE DE BELÉM

A SEMANA EUROPEIA E AS PRESIDENCIAIS

 

GRÃ-BRETANHA: EURO-ELEIÇÃO OU REFERNDO POLÍTICO?

WINDSOR "ANTECIPA" LEGISLATIVAS

ALEMANHA — UM TESTE PARA AS LEGISLATIVAS

LUXEMBURGO — COM OS OLHOS NAS LEGISLATIVAS

PROBLEMAS ESPANHÓIS ABAFAM QUESTÕES EUROPEIAS

Outro campeonato, de disputa cerrada, foi também palco para vários títulos na imprensa portuguesa, durante os seis meses que compreendem o âmbito temporal da nossa pesquisa. Falamos da corrida à sucessão de Jacques Delors. Os nomes dos seus sucessores iam surgindo, com a actuação de Jacques Delors a ser seguida também com particular atenção. Os títulos reflexo das manobras de acesso a tão poderoso cargo:

DEHAENE MAIS PRÓXIMO DA COMISSÃO EUROPEIA

O ÚLTIMO FÔLEGO DE DELORS

IMPASSE NA SUCESSÃO DE JACQUES DELORS

CORRIDA PARA A SUCESSÃO DE DELORS

DEHAENE — O SUCESSOR DE DELORS?

A "TRAPAÇA" DA SUCESSÃO

OS DOZE TRABALHOS DE DELORS

COMO ESCOLHER DEHAENE SEM OFENDER

ANGÚSTIA PARA O JANTAR NA CIMEIRA DE CORFU

DELORS MARCA PONTOS NAS CONCLUSÕES

MAJOR VETA FEDERALISTA DEHAENE

DELORS SEM SUCESSOR

Títulos interrogativos detectámos vários. Se uns espelhavam falta de segurança quanto ao assunto narrado, noutros casos o ponto de interrogação enquadrava-se no carácter especulativo do texto, geralmente crónicas em que se dissecavam aspectos diversos das eleições ou da vida das instituições comunitárias. Ponto de interrogação que denunciava também e quase sempre o remate bicéfalo do autor do texto, com portas abertas para mais do que uma solução.

Noutros casos, o título interrogativo indiciava porta aberta sim, mas a um facto político que o jornalista de per si, ou através de meias informações deixadas cair pelos aparelhos partidários, tentava criar.

PSD MUDA NA EUROPA?;

QUATRO MAIS TRÊS IGUAL A 27?;

O QUE É O "CIDADÃO MÉDIO PORTUGUÊS?";

GRÃ-BRETANHA — EURO-ELEIÇÃO OU REFERENDO POLÍTICO?;

GRÉCIA — ONDE ESTÁ A CAMPANHA?;

DEHAENE — O SUCESSOR DE DELORS?;

PESCAS — GUERRA COM ESPANHA?;

LEGAL OU ILEGAL?;

AGORA A SÉRIO: QUANTAS FICHAS REQUER A CE?;

VITÓRIA PARA TODOS?;

QUE FAZER COM ESTA VOTAÇÃO?;

 

PORQUÊ EURICO?;

E DEPOIS DE 1999?;

O ESCUDO NO SME ESTÁ A SER POSITIVO OU NEGATIVO PARA A ECONOMIA?;

EUROPA, PARA QUE TE QUERO?;

VALEU A PENA O ESCUDO ENTRAR NO MECANISMO DAS TAXAS DE CÂMBIO?;

ONDE VAIS, ESCUDO?;

UM PAÍS INVISÍVEL?;

PARA ONDE VAI A EUROPA?;

O MAU ALUNO EUROPEU?;

IMPORTA-SE DE EXPLICAR?;

E AGORA, CAVACO?;

QUE EUROPA?;

NÃO NOS DÁ O SEU VOTO? INGRATO!;

EUROPA, QUE PRESENTE?;

EUROPA?! QUE EUROPA?;

VITÓRIA OU DERROTA?;

EMPRESAS E POLÍTICA: A CAMINHO DA ITALIANIZAÇÃO?;

 

Na fronteira com os títulos interrogativos, encontramos os evasivos, os títulos que avançam com hipóteses. É curioso verificar como o facto noticioso em si se alarga fruto de várias condicionantes, entre as quais se encontra a cada vez maior necessidade de notícias num mundo que parece não parir acontecimentos ao ritmo vertiginoso que surgem novos media; verificar como o que pode ser notícia se alarga assim ao campo das hipóteses, o jornalismo a raiar a futurologia, inchada demais para se deixar acantonar aos estreitos limites da crónica.

DEUS PINHEIRO PODERÁ LIDERAR LISTA EUROPEIA DO PSD; PSD PODE ADERIR AO GRUPO DA DIREITA EUROPEIA;

LUCAS PIRES PODERÁ "DIVORCIAR-SE" DO PSD;

RESULTADO DAS EUROPEIAS PODE FAZER CAIR GOVERNO BELGA;

PS DEVERÁ ELEGER O DEPUTADO QUE FALTA;

PS DEVE ELEGER MAIS UM DEPUTADO;

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Para Paul Ricoeur, A EUROPA É UMA UTOPIA. Para muitos outros, uma questão de fé. E quando é o lugar de eurodeputado que está em risco, ninguém tem pejo em falar mesmo de bênçãos divinas : — SÓ UM MILAGRE ELEGERÁ MENDES BOTA, lia-se dias depois do fecho das urnas. Se o eurodeputado algarvio fosse UM HOMEM DE FÉ, como se rotulava Gilberto Madaíl, seu colega de lista, poderia ter acreditado na viabilidade do milagre, durante alguns dias, até à desilusão final, quando soube que não seria mesmo eleito.

Melhor sorte se espera para uma das regiões mais sacrificadas do país. Também ali se aguarda a intervenção divina: ALENTEJO À ESPERA DO MILAGRE. Outros milagres foram erigidos à dignidade de títulos: QUASE UM MILAGRE, ou O MILAGRE DA MULTIPLICAÇÃO DOS FUNDOS, bebendo este título da inspiração bíblica da multiplicação dos pães.

Houve quem tentasse mesmo imitar a Rainha Santa Isabel, mas atendendo ao facto de se estar em campanha eleitoral, nada de pães transformados em rosas, antes TRANSFORMAR SORRISOS EM VOTOS.

O santo casamenteiro, padroeiro de Lisboa, arriscou-se desta feita a ganhar o epíteto de santo abstencionista. Um dos jornais não teve pejo em titular ELEITORES PREFEREM SANTO ANTÓNIO.

E ainda fomos ficando a saber que a IGREJA RECONHECE BENEFÍCIOS DA EUROPA, ou que a EUROPA DEPENDE DO CRISTIANISMO.

Manda a sabedoria popular que promessa feita, promessa cumprida, e se nas questões da fé cada um é rei e senhor para aferir de cumprimentos e pagamentos, já na política mandam os catálogos do povo sofredor que pelos menos se cumpra 10% do prometido. Se assim não acontece, há quem fique farto.

Daí PROMESSAS ORIGINAM BOICOTES. Se Luís Sá fosse membro do governo, poderíamos inferir do título seguinte que o homem lá tinha semeado mais uma mão cheia de promessas numa qualquer circunscrição: AS JURAS DE SÁ.

Se os analistas o não disseram, é porque estão habituados a utilizar linguagem "políticamente correcta", mas alguns devem ter pensado que Cavaco Silva teve um grande "paio", nestas eleições. A viver durante meses sob o flagelo de sondagens dizimadoras das mais ténues esperanças laranjas, a tangente saída das urnas foi uma surpresa difícil de entender usando só a razão. Daí que, usando a razão no corpo do artigo, o jornalista ou cronista deixasse fugir uma explicação mais transcendental para o título do artigo. Por isso lemos FAVORITO DOS DEUSES, O ESPÍRITO SANTO DE CAVACO. O que não seria de admirar, se antes ao Primeiro-Ministro e líder do PSD já haviam sido conferidas faculdades sobrenaturais: CAVACO SEPARA ÁGUAS.

Dos elementos também tivémos novas nas europeias: AS NUVENS DO PARAÍSO, UM RAIO ITALIANO SOBRE O ELEITORADO.

O mesmo se diga das personagens malquistas dos mundos da fé: ABANDONO DA VINHA: PRÉMIOS DE JUDAS; ESPANHA PREPARA PLANO HIDROLÓGICO DOS DIABOS.

A moral e os bons costumes não poderiam andar arredios do cenário eleitoral, com um MONTEIRO MORALISTA, por certo a vociferar contra a "IMORALIDADE" DOS PARTIDOS.

Se o comissário europeu de nacionalidade portuguesa fizer colecção dos recortes de imprensa que a si e à sua actividade se referem, corre o risco de, ao mostrar a compilação aos netos, estes a poderem confundir com um jornal escrito numa qualquer redacção celestial. O facto de antes de ser Pinheiro ser Deus, leva a que os jornalistas usem e abusem da sua graça divina para a escarrapachar em títulos que assim ganham dúplice significação. Atente-se apenas neste: DEUS QUER NOVA ATITUDE NO AUDIOVISUAL.

Por último, e para contrariar a onda de descrença que assola tanta mente cristã que na Europa vive, descrença nesta mesma Europa, os europeístas mais convictos eram consolados por manifestações de fé no continente dos seus olhos por gentes de outros credos — MUÇULMANOS COM FÉ NA EUROPA.

Das lides de campanha, houve mesmo quem se tivesse entusiasmado com a recepção calorosa a um cabeça-de-lista, e não resistisse a tocar a trombeta do título — REGRESSO À BAIXA, "ALELUIA!"

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Alguns títulos da imprensa hodierna exercem as suas funções para além do jogo tipográfico, sendo por vezes utilizados também no jogo topográfico de arrumação das notícias. No exemplo que damos a seguir, verificamos uma característica assaz curiosa, a revelar-nos que um título não só pode servir para sinalizar uma notícia, como também pode abrir as portas à leitura de uma outra. Acontece assim com o título que termina com reticências, para se ligar a outro título mais abaixo ou mais ao lado, esse com as reticências no início.

Exemplos:

ALEMÃES MAIS CÉPTICOS…   … E FRANCESES "EUROPERPLEXOS"

MONTEIRO COMPÕE LISTA…   … E ASSUSTA FORRETAS

SIM, CRESCE NA ÁUSTRIA…  … NA NORUEGA CRESCE O NÃO

REFERENDO DURO NA ÁUSTRIA…  … E EQUILÍBRIO TAMBÉM NA FINLÂNDIA

Os títulos acima reproduzidos referem-se quse todos a breves. Já no caso do próximo título, ou duo de títulos — HOMEM DO SUL… HOMEM DO NORTE, a ligação é feita entre duas entrevistas, a José Saramago e a Gonçalo Torrente Ballester. Cada uma das entrevistas ocupando uma página inteira. Os títulos são "unidos" por reticências que cumprem a dupla função de os ligar, mas também de evidenciar o confronto de perspectivas entre os dois homens de cultura. É como que um debate, um frente a frente nas páginas da imprensa, esta na busca das difíceis fórmulas que a permitam aproximar-se dos modelos do todo-poderoso papão televisivo.

Imagem de topo extraída d e brochura do "Office des Publications Officielles des Communautés Européennes"

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