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HENRI CARTIER-BRESSON
A Fotografia Imaculada
 
Aos 90 anos, Henri Cartier-Bresson permanece como uma figura nuclear do fotojornalismo ocidental da última metade do século. Fotógrafo do instante decisivo, co-fundador da agência Magnum, viajando pelo mundo inteiro ele soube como poucos testemunhar as vivências e contradições do nosso tempo. Com a sua arte, a sua ética e a sua Leica.

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Uma das raras imagens do próprio Henri Cartier-Bresson, fotografado por René Burri, em 1963, durante uma viagem a Cuba

QUANDO a televisão francesa o convenceu a dar uma entrevista ao fim de vários anos de espera, Henri Cartier-Bresson (HCB) acedeu com a condição de só ser filmado de costas. «Mas isso é complicado, só o fazemos a prostitutas e polícias!», argumentou o realizador. O mestre não se mostrou convencido: «Não faz mal. Nós, os fotógrafos, somos a terceira profissão a trabalhar na rua.»

Este mês, ao fazer 90 anos, HCB personifica tudo o que o fotojornalismo representa na cultura ocidental da última metade deste século. Um olhar humanista, social e político, debruçado sobre a aventura do mundo contemporâneo a partir de uma disciplina visual baseada nos ensinamentos das belas-artes como a pintura e o desenho. À prática narrativa acrescentou uma postura ética, purista, ortodoxa e radical que fizeram escola e religião.

A obra fotográfica de HCB começou por acaso nos anos 30, quando o movimento surrealista estava no auge. Um dia deparou-se-lhe uma fotografia de Muncakski onde um grupo de jovens mergulha numa onda - se a linguagem e a técnica da fotografia permitiam resultados tão motivadores, então ele queria ser fotógrafo. «Peguei numa máquina e fui para a rua, cheirando fotografias. Apenas tinha curiosidade de registar tudo numa atitude surrealista.»


Fotografia obtida em Madrid, 1933

Para HCB, fotografar era, antes do mais, um acto de compreensão gráfica do mundo. A busca do tal «instante decisivo» de que ele foi o teórico. A procura inquieta e obsessiva do cruzamento entre o espaço e o tempo em que um acontecimento pode ganhar forma de testemunho e mensagem. Pela primeira vez na história da fotografia, havia alguém que reflectia profundamente sobre o acto fotográfico e o praticava.

A formação artística de HCB e a sua experiência em áreas como a pintura e o cinema (chegou a ser assistente de Jean Renoir) teve reflexos directos na sua prática de fotógrafo. Foi com ele que apareceram pela primeira vez conceitos como o do aproveitamento integral do negativo, a recusa do «flash» a favor da luz ambiente, a utilização de focais próximas do ângulo da visão humana, o repúdio total pelos efeitos especiais de laboratório. Era a fotografia imaculada, no estado puro.


Por detrás da Gare Saint-Lazare, Paris, 1932

Não tendo sido um fotojornalista no sentido do estafeta que se desunha pela imagem fresca do dia, HCB testemunhou com a sua Leica momentos históricos únicos. As crianças sevilhanas a brincarem nos destroços da guerra, a libertação de Paris, a morte de Gandhi, os anos da depressão americana, o Portugal tranquilo dos anos 50, a Cuba livre de Fidel, o Maio de 68, o fascínio e a decadência de Marilyn Monroe na rodagem de Os Inadaptados, os retratos de Sartre, Faulkner e tantos outros... o mestre esteve sempre lá.

Discreto, como um gato, fotografava aos saltinhos sem ser visto. Desconhecia teleobjectivas. A Leica na mão, armada como a flecha no arco, era o prolongamento da vista e dizia alguém que o conhecia que fazia parte de si, «não sei se a larga na banheira!»


México, 1964

Quando nos anos 40 fundou a agência Magnum, juntamente com outros fanáticos da imagem fixa, HCB lançou um verdadeiro código de conduta. A agência nasceu da necessidade dos fotógrafos poderem controlar o seu próprio trabalho. Não vendiam fotografias a metro, nem trabalhavam para o boneco. As imagens eram obrigatoriamente assinadas e nenhum corte no enquadramento tolerado. Com este grupo de fotógrafos intelectuais e de esquerda, mas amantes da vida no seu melhor (o nome Magnum era uma homenagem ao célebre champagne), a fotografia de imprensa tornou-se objecto cultural. O Museu de Arte Moderna de Nova Iorque expôs HCB. Images À La Sauvette, o mais famoso dos seus livros, editado por Delpire, teve uma capa encomendada a Matisse - o fotógrafo e o pintor como cúmplices.

Caçador, inconformista, anarquista, budista, tudo isto assenta na personalidade do avô Henri. Podemos acrescentar-lhe uma dose de muito mau feitio, próprio de alguns génios. Hoje, refugiado no seu apartamento de Paris, desenha com traço nervoso e parece ter esquecido a velha Leica. Quando lhe falam de fotografia, continua a responder a preto e branco, desviando a conversa: «Do que eu gosto é de pintura!»

Texto de LUIZ CARVALHO



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Última actualização em 22/8/98 às 04:10:36.
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