
com
Christian
Caujolle
Antônio Ribeiro e
Flávio Rodrigues *
Photosynthesis
- Há muita gente em nossa área que o
apelidou Senhor Fotografia, acha que o
nome lhe faz justiça?
|
Tomada
do Forte de Copacabana,
no início do golpe de 1964
foto: Evandro Teixeira
 |
|
CAUJOLLE
- Antes de mais nada, acho que estou
particularmente mal colocado para concordar, e
além disso, felizmente esse jamais foi meu
objetivo ou ambição. A fotografia não é o meu
único centro de interesse. É, obviamente minha
atividade profissional principal. Interesso-me
por tudo o que diz respeito à literatura,
cinema, pintura, enfim, a arte em geral, mas é
também verdadeiro que intervenho essencialmente
na fotografia e na prática fotográfica.
Photosynthesis -
Como se explica que um antigo aluno de Roland
Barthes e Michel Foucault tenha se tornado o
editor de fotografia do Libération?
CAUJOLLE - Por
pura casualidade, e há acasos e decisões, isto
é, quando era estudante fui ligado à extrema
esquerda maoista na França e participei da
criação do Libération. Em 1973 estava em
Toulouse mas em seguida conclui estudos
clássicos, estudos de literatura e um dia decidi
que não tinha vontade de ensinar sob as
condições que a universidade dispunha à época
e foi exatamente nesse momento corri o risco de
me tornar um jornalista independente; era uma
época em que se podia trabalhar com o
Libération de maneira extremamente suave e eu me
interessava pessoalmente pela fotografia porque
ela me parecia um dos campos da criatividade de
maior importância, complexo na sua essência e
que não dispunha de ninguém para escrever sobre
ela.
Pensei então
que poderia escrever sobra as exposições de
fotografia e lançamentos de livros. Quando em
1981 se produziu a nova fórmula do jornal, e
esse foi o projeto mais marcante na imprensa
francesa, além de continuar escrevendo, aceitei
a responsabilidade de uma política editorial ao
nível da fotografia. É verdade que aconteceu ao
mesmo tempo uma história pessoal que busca suas
raízes na militância e os acasos absolutamente
conjunturais, onde havia uma grande questão:
como poderia a fotografia participar ou não da
informação, e a dúvida veio num contexto muito
particular porque a imprensa francesa é muito
singular, nascida justamente após a liberação
da França em 1945 e que não teve evolução
até 1981. Era uma imprensa que havia envelhecido
e não se adaptara aos tempos modernos.
Tomando-se a fotografia como exemplo, a imprensa
francesa diária não a utilizava como forma de
ilustração. Ela não dispunha da menor
autonomia no contexto em que se encontrava e
tampouco tinha diversificação nas suas
funções. E foi exatamente aí que tentei
interceder, procurando dar à fotografia mais
autonomia no seu discurso e favorecer a
diversificação de sua utilização e funções.
Photosynthesis -
Qual foi especificamente o projeto da fotografia
nessa nova fórmula?
CAUJOLLE - Houve
inicialmente barreiras, impecilhos a permitir a
fotografia com um status próprio, que era o da
ilustração ambicionada à época do
Libération. A fotografia em 1981, como a dos
dias de hoje era também uma foto amadorística,
como essas feitas em maquinas automáticas que se
encontram nos metrôs, que é feita por qualquer
um para ser exposta num museu ou vendida a algum
colecionador de arte contemporânea. Eu pretendia
que o Libération, e creio ser essa a função de
qualquer jornal, refletisse o momento e o
contexto onde se encontrava; se percebe aí a
proximidade da fotografia no jornal que não deve
se limitar a fotografia tradicional, ainda que
respeitável, pois ela impõe limites, e são os
limites do que convencionamos chamar de
fotografia para a imprensa, e que é o documento
que o fotógrafo produziu em relação a um
acontecimento e eu queria que se fosse mais
longe, desejava que houvesse critérios de
utilização que fossem muito diferentes.
A fotografia
para um jornal diário propicia antes de mais
nada, colocar rítmo na leitura, mas existe
também a função informativa, há fotos com
cinco linhas de legenda - era nesse caso que ela
participava da informação - e há simplesmente
fotos publicadas pelo prazer estético, pois há
situações que não se pode representar em
fotografias. Nesse momento tentamos fazer o
leitor se interessar por qualquer imagem
plasticamente interessante e que o fizesse
prestar atenção. E foi a partir daí que eu
decidi publicar no Libération não a chamada
foto jornalística, de moda, etc. mas a foto
autoral, e radicalizamos de certa forma. Nem
sempre foi fácil em termos gerais, à exceção
no Libération, porque houve confiança
recíproca com a direção artística da
redação e integração com o projeto gráfico
do jornal.
Photosynthesis -
O senhor disse que houve uma recusa, espécie de
veto.
CAUJOLLE - Não
foi exatamente veto; havia uma cultura reinante e
a cultura na fotografia de imprensa veta
numerosos caminhos da fotografia e foi contra
isso que me bati; entretanto acabou sendo aceito
pelo projeto gráfico, que se tornou rico e mais
satisfatório. É necessário que se diga
honestamente que, quando se produz um jornal
diário, não se dá conta no dia-a-dia, da
importância contida nessa ou naquela matéria
vinte anos mais tarde; de mais a mais um jornal
diário possui uma arquitetura apaixonante porque
ele se extingue todos os dias, pode-se se
enganar, pode-se se aprender muita coisa, nada é
definitivo.
Photosynthesis -
Qual é a relação de força entre a redação e
a fotografia?
CAUJOLLE - Este
é um problema de espaço, que está na origem da
situação; aqueles que escrevem pensam sempre
que os fotógrafos tomam seus lugares e
vice-versa.
* Antônio
Ribeiro y Flávio Rodrigues son periodistas brasileños de la
revista Photosynthesis. Esta es su primera colaboración para Sala de Prensa.
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