Distribuição da luz nos retratos photographicos

O estudo dos effeitos da luz e da sombra é tão importante como o da pose, porque é a justa distribuição da luz que dá á photographia a illusão de um relevo.

A arte da distribuição da luz é muito despresada, mesmo pelos photographos, que só attendem á pose.

Em geral collocam o modelo n' uma extremidade da galeria e dirigem a luz para aquelle lado, regulando-a de uma vez para sempre.

Assim, sejam quaes forem os traços e o caracter dos modelos, a luz é invariavelmente a mesma para todos.

Isto constitue um grande erro, porque a pose das figuras e a sua illuminação estão intimamente ligadas, porque uma dá valor á outra e ambas estão sujeitas ás mesmas regras e pertencem á mesma ordem de estudos.

O retrato deve ser tirado conforme a individualidade da pessoa a photographar, isto é, segundo o caracter moral denunciado nos seus traços e se­gundo a expressão, a edade e a profissão.

Uma creança, por exemplo, deve ser brilhantemente illuminada por meio de pequenos contrastes de sombras bem modeladas, afim de se representar fielmente o seu rosto delicado.

O retrato de uma mulher deve ser executado da mesma maneira para tornar o seu aspecto calmo, juvenil e gracioso.

Para um homem, os contrastes de luz e sombra devem ser mais fortes afim de darem firmeza e vigor aos seus traços.

Um homem dotado de um rosto característico póde ser illuminado á Rembrandt; não por essa luz que os photographos chamam Rembrandt, que consiste geralmente em collocar o modelo quasi de perfil e a maior parte do rosto na sombra.

Rembrandt nunca illuminou os seus modelos d'esta forma, mas sim por meio de largos effeitos de luz e sombra, dispondo só uma pequena parte do rosto na sombra.

A cabeça é a parte principal do retrato e, portanto, deve constituir o centro de illuminação; nenhuma outra parte lhe deve ser egual em brilho.

O primeiro cuidado do pintor é o de proceder de maneira que no seu quadro appareça um corpo destacado do fundo. Aquelle que vencer os outros a este respeito, é considerado mestre.

A superioridade na arte provém da justa e natu­ral distribuição da sombra e da luz.

É a isto que se chama a arte do claro escuro, e aquelle que não obedecer a esta arte, nunca póde ser apreciado aos olhos dos conhecedores.

 

Para se obterem bons retratos é condição essencial a educação dos olhos, isto é, a faculdade que os torna aptos a examinarem a imagem que se quer reproduzir.

Quando se não possue esta faculdade, quando se não sabe dirigir a luz e a sombra de maneira a produzir effeitos plásticos, difficilmente se conseguirá obter um retrato mediano.

Por isso, deve o amador estudar as diversas figuras que encontra na rua, nos comboios, nos americanos, etc., etc., observar as cambiantes da luz e da sombra, que se produzem rápida e successivamente, e ver como se manifestam estes effeitos variados.

Convém examinar a direcção da luz n'uma pes­soa que estiver perto d'uma janella ou d'uma porta e observar as cambiantes devidas ás varias posições que assumir.

E especialmente necessário observar os pontos luminosos dos olhos, porque se estes não estiverem n'uma posição conveniente, não dão á imagem a apparencia de vida.

Na falta de atelier, qualquer aposento, illuminado por uma janella que abra para um logar amplo póde servir, até certo ponto, de estudio photographico para fazer retratos. (…)


in Manual Pratico de Photographia, Adalberto Veiga, Livraria Classica Editora de A. M. Teixeira, Lisboa, 1905, páginas 129 a 131.