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Queima das Fitas, Coimbra, Maio 2007
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O Clube do Bangue Bangue
Existem livros mais importantes e livros menos importantes. Durante o período de faculdade alguns passam a ser obrigatórios, outros necessários. O livro "O Clube do Bangue-Bangue" é leitura fundamental para todo estudante de jornalismo. Não porque ele é recheado de conceitos jornalísticos, mas ali estão algumas lições importantes para quem um dia irá trabalhar como repórter ou como repórter fotográfico.

O livro narra a história de quatro fotojornalistas sul-africanos que cobriram um dos períodos mais sangrentos daquele país. De 1990 a 1994, exatamente o período de libertação de Nelson Mandela até a primeira eleição democrática, várias facções lutavam entre si nas cidades dormitório de Joanesburgo, o que resultou em mais de 14 mil mortes.

As atrocidades cometidas naquela guerra ganharam a primeira página em jornais do mundo e as imagens clicadas pelos quatro fotógrafos ganharam dezenas de prêmios, inclusive o prêmio Pulitzer de fotografia.

Muitas matérias sobre esses quatro fotógrafos brancos, de classe média, foram produzidas em diversos jornais pelo mundo todo. A publicação do livro desmistifica um pouco a lenda em torno de suas façanhas, mas deixa claro a responsabilidade da imprensa num conflito sangrento que matou milhares de pessoas. Como escreveu a jornalista Dorrit Harazim, "Greg, João, Ken e Kevin fizeram história e foram notícia".
Um dos aspectos mais importantes para os estudantes de jornalismo é a questão ética da profissão. Em uma das partes mais interessantes do livro, o fotografo Greg conta que ao tentar fotografar uma criança de nove meses que foi morta com uma facada na cabeça (e a lâmina ainda estava lá) ele encontrava dificuldade para encontrar a luz necessária, e pediu para que a tia da criança ficasse em frente da janela para impedir a entrada do sol, o que permitiria, enfim, que a foto fosse feita. Mesmo assim ele mostra seu descontentamento, dizendo que foi um erro ter manipulado a cena daquela forma. Bom, se esse fosse o único problema ético do jornalismo, até que estaria ótimo.

O Clube do Bangue-Bangue
344 Páginas
Preço R$ 39,50
Cia das Letras


Texto de apresentação do livro

O período compreendido entre a libertação de Nelson Mandela, em 1990, e sua eleição para presidente, em 94, foi um dos mais violentos da história da África do Sul. A euforia gerada pela libertação do líder negro foi acompanhada de uma intensa onda de terror. O governo branco sustentava que os distúrbios eram fruto da luta travada entre o CNA (Congresso Nacional Africano), de Mandela, e o Inkatha, partido separatista zulu. Anos depois, ficaria provado que os assassinatos eram planejados pelo governo a fim de abalar a sustentação do CNA e impedir a vitória do partido na primeira eleição em que brancos, negros e coloured votariam em igualdade de condições.
Trabalhando para jornais do país e agências internacionais, os amigos Ken Oosterbroek, Kevin Carter, João Silva e Greg Marinovich fotografavam os conflitos na periferia de Joanesburgo. Os quatro ganharam um apelido de uma revista sul-africana: Clube do Bangue-Bangue - rótulo a que resistiram inicialmente, mas que terminaram por assumir.

As fotos do Clube contribuíam para chamar a atenção do mundo para o que ocorria na África do Sul e receberam prêmios internacionais, como o Pulitzer. Mas os quatro fizeram, cada um a seu modo, uma descida aos infernos. Unidos pela terrível experiência de registrar os massacres, eles experienciaram um profundo dilema ético: quando se presencia um assassinato, é melhor socorrer a vítima ou fotografar? Dilacerados pela violência extrema e pela obstinação em obter a melhor foto, cumpriram trajetórias distintas, mas marcadas pela mesma dificuldade: lidar com a impossibilidade de registrar os acontecimentos e, ao mesmo tempo, ajudar as pessoas em perigo.
Ken Oosterbroek morreu durante uma batalha na cidade-dormitório de Thokoza, em 1994. Kevin Carter suicidou-se aspirando a fumaça de seu carro. O sul-africano Greg Marinovich e o moçambicano João Silva sobreviveram, e refazem em O Clube do Bangue-Bangue uma história que permite entender os lances mais violentos de um combate selvagem e dá contornos tão humanos quanto dramáticos ao dia-a-dia de um correspondente de guerra.

Introdução, por Desmond Tutu

Quase todo mundo fez as mais sinistras previsões sobre o rumo que a África do Sul tomaria. Acreditava-se que aquele belo país se veria imerso na mais terrível carnificina e que certamente uma catastrófica guerra racial devastaria a nação. E essas previsões pareciam prestes a se concretizar quando a violência irrompeu na época em que se negociava a transição da repressão para a liberdade, do governo totalitário para a democracia. No início da década de 90, o terrível derramamento de sangue parecia endêmico.

Nos trens ocorriam assassinatos aparentemente casuais; massacres aconteciam quando habitantes dos distritos negros eram instigados contra moradores dos albergues, que levavam uma existência antinatural em alojamentos exclusivos para homens, alienados da vida comunitária mais estável nas áreas urbanas negras. As pessoas estavam morrendo como moscas, e morrendo de uma maneira horrível, com o infame necklace - um pneu cheio de gasolina colocado no pescoço da vítima e depois incendiado. Estatísticas das baixas eram publicadas diariamente. Sempre que elas diziam que cinco ou seis pessoas tinham sido mortas nas últimas 24 horas, muitos de nós suspirávamos aliviados: "Só cinco", ou "Só seis", dizíamos. A situação estava nesse ponto.

Tudo indicava que a maior parte desse derramamento de sangue se devia à sangrenta rivalidade entre o Congresso Nacional Africano (CNA), de Nelson Mandela, e o Partido da Liberdade Inkatha (PLI), liderado por Mangosuthu Buthelezi, que disputavam espaço político para estabelecer uma supremacia inquestionável. Parecia uma explicação plausível, até que alguns aspectos estranhos dessa rivalidade sanguinolenta começaram a chamar a atenção. Os massacres pareciam quase sempre ocorrer quando as negociações para a transição haviam atingido um estágio delicado, e era uma curiosa coincidência as negociações serem colocadas em grande risco num ponto crítico das discussões.

Seria de se supor que os assassinatos nos trens fizessem parte de uma rivalidade entre inimigos políticos, mas esse ponto de vista se tornou insustentável diante do fato de que os assassinos alvejavam e matavam pessoas ao acaso. Não diziam nada, não pediam aos passageiros que declarassem sua filiação política. Como sabiam, portanto, que não estavam assassinando seus próprios correligionários?

Mais difícil ainda de aceitar era a rivalidade entre partidos políticos como explicação para os disparos feitos de carros em movimento, uma característica do instável período pré-eleitoral. Fazia mais sentido concluir que tudo se destinava a encher de pânico os moradores dos distritos negros, levá-los a dizer que o CNA era incapaz de proteger seus membros, erodindo, assim, o considerável apoio de que este partido gozava nas áreas negras. Tornou-se cada vez maior o número de pessoas que falavam de uma sinistra terceira força, de algum modo associada ao governo de apartheid e a suas forças de segurança, decidida a fomentar a chamada violência de negros contra negros e a permitir que o governo de apartheid e muitos brancos pudessem alegar, triunfantes, como era patente que os negros ainda não estavam prontos para a democracia e para o poder político. Essa obsessão pela violência de negros contra negros sempre me intrigou - como se a violência de negros contra brancos fosse mais aceitável. E por que nunca ninguém descreveu a brutalidade que ocorria na Irlanda do Norte ou na Bósnia, em Kosovo e em outras regiões, como exemplos de violência de brancos contra brancos? Nesses lugares era apenas violência. Então por que violência de negros contra negros?

O governo de apartheid e suas coortes negaram qualquer participação no incitamento a essa violência sangrenta e horrenda. Ficaria provado, através da Comissão Goldstone, por exemplo, que mentiram. As peças começaram a se encaixar, explicando, por exemplo, os assassinos silenciosos nos trens. Conforme seria revelado, a maioria deles veio de fora da África do Sul - de Angola, Namíbia etc. - e não sabia falar as línguas locais. Se abrissem a boca se trairiam. Na verdade, as mortes nada tinham a ver com rivalidade política, mas sim com pessoas que desejavam agarrar-se ao poder a qualquer preço, à custa do mais terrível derramamento de sangue.

Essa história precisava ser revelada ao mundo. Tivemos a grande bênção de contar com jornalistas dos mais talentosos e fotógrafos dos mais brilhantes. Eles ajudaram a tornar conhecida essa história. Registraram em filme alguns de seus momentos mais impressionantes, como a cena horrenda de um necklacing e uma multidão, de um lado ou outro do conflito, urrando e voltando-se barbaramente contra a vítima indefesa. Alguns desses profissionais receberam grandes homenagens por seu trabalho, como o Prêmio Pulitzer - um deles, pela foto de um abutre espreitando uma criança aparentemente moribunda no Sudão. A foto estarreceu um mundo um tanto complacente. Era freqüente nos surpreendermos quando víamos o trabalho deles. Como conseguiam capturar tais imagens em meio àquele caos? Deviam ser dotados de uma coragem extraordinária para trabalhar em zonas de morte com tamanha indiferença e profissionalismo. E deviam ter tido uma calma ímpar. Não, deviam ter tido mesmo é sangue-frio, para considerar tudo isso como parte de um dia de trabalho.

Agora que o véu se ergueu, sabemos um pouco mais sobre a maneira como essa gente notável trabalhava, e como freqüentemente precisava se mostrar insensível, a ponto de andar sobre cadáveres sem revelar muita emoção, de modo a capturar a imagem especial que garantiria o interesse das agências por seu trabalho. Agora sabemos um pouco mais sobre o preço pago, sobre o constante jogo com a morte, sobre a filiação ao que eles, com humor macabro, chamavam de Clube do Bangue-Bangue. E sabemos um pouco mais sobre o preço do trauma, que levou alguns ao suicídio. Sim, sabemos que essas pessoas eram seres humanos atuando sob as mais penosas condições. Este é um livro esplêndido, devastador quando revela a que ponto estamos dispostos a chegar para conquistar o poder ou a ele nos agarrar, e calorosamente honesto sobre o alto custo disso, pois traz à vista do público o que por muito tempo se manteve fora de alcance. Temos uma dívida imensa com eles por sua contribuição ao frágil processo de transição da repressão para a democracia, da injustiça para a liberdade.
Trata-se da obra de dois artistas notáveis. Não admira que um deles tenha ganhado o Prêmio Pulitzer pelas imagens fotográficas da Guerra dos Albergues, da qual este livro é o registro escrito.

Desmond M. Tutu
arcebispo emérito da Cidade do Cabo, África do Sul

Prefácio
Ao escrever este livro, enfrentamos várias lutas: recordações enevoadas, relutância em revisitar o que foi um período muito difícil e a busca da melhor maneira de lidar com a complexidade inerente ao relato da história de quatro pessoas que, embora unidas profissionalmente, tiveram vidas e experiências muito diferentes. No final, decidimos que seria melhor se uma única voz narrasse a história, a de Greg. Mas, se não tivéssemos colaborado, este livro não teria sido possível. Uma única pessoa é incapaz de ver o suficiente para produzir um livro desta natureza, e com certeza a pesquisa e a redação dele nos ajudaram a compreender muito mais de nossos amigos, de nós mesmos e daquela época. Não se pode pretender conhecer o que vai pela mente nem mesmo de nossos amigos mais íntimos, mas fizemos uma tentativa honesta de penetrar no nevoeiro que cercava a nós e a nossos amigos daqueles tempos de dor.
Nunca tivemos a intenção de escrever um livro sobre aquele período. Quando finalmente começamos a escrevê-lo, em 1997, foi mais uma jornada de descoberta do que uma tentativa febril de fazer a crônica do que considerávamos uma verdade já estabelecida. Descobriríamos que as perguntas sobre o que fizemos e sobre como lidamos com tudo eram muito mais complexas do que o modo como as tínhamos compartimentado mentalmente. Daquela época restou uma porção de raiva e ressentimento que não é possível eliminar - faz parte de nós e do país. Mas também emergiu de nós uma quantidade surpreendente de perdão, boa vontade e humanidade. Esse misto de emoções condiz muito com a África do Sul que conhecemos.
Muito se escreveu sobre o Clube do Bangue-Bangue, de repórteres-fotográficos sul-africanos, no período de violência que marcou o fim do regime de apartheid na África do Sul. O nome cria a imagem de um grupo de homens de vida dura, que trabalhavam, se divertiam e passavam juntos a maior parte do tempo. Vamos esclarecer as coisas: nunca houve tal entidade, nunca houve esse clube e nunca houve nem ao menos quatro de nós numa espécie de culto ao haleto de prata. Dezenas de jornalistas cobriram a violência no período que se estendeu da libertação de Nelson Mandela até a primeira eleição plenamente democrática.
Descobrimos que um dos elos mais fortes entre nós eram perguntas relativas ao aspecto moral do que fazemos: quando é que você aperta o botão do obturador e quando você deixa de ser fotógrafo? Descobrimos que a câmera nunca foi um filtro que nos protegia do pior que testemunhávamos e fotografávamos. Pelo contrário: parece que as imagens ficaram impressas não só em nossos filmes, mas também em nossas mentes.
Nós quatro éramos amigos, mas não se tratava de uma amizade conjunta, mútua, e sim de laços individuais que às vezes se sobrepunham. Mas com certeza havia um denominador comum: todos nós cobrimos os eventos devastadores dos anos 90 com um senso de determinação e a noção de estarmos participando da história, e podemos entender que, visto de fora, esse apelido fácil viesse a ser considerado real.
No livro empregamos muitos termos exclusivamente sul-africanos, outros vertidos para o inglês, outros em uma das nove línguas africanas e em africâner, além da gíria dos distritos negros, tsotsitaal. Alguns estão explicados no próprio texto e outros se explicam por si, mas no final do livro há um glossário dos termos que têm uma ressonância especial para os sul-africanos. Há também uma cronologia de eventos históricos na África do Sul que acreditamos ajudará a compreender o que ocorreu desde que os primeiros colonizadores brancos se estabeleceram na extremidade meridional da África.

in http://www.paremasmaquinas.com.br/

Veja algumas fotos da autoria dos integrantes do "Club do Bang-Bang"



Data: 2006-05-26
Autor: Eduardo Toledo

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